Estrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativa
 

Este texto é fictício, qualquer semelhança com pessoas ou fatos é mera coincidência.
Hoje, 

O mais jovem Juiz; O mais jovem Médico; O mais jovem consultor; O mais jovem escritor; O mais jovem funcionário da empresa XXX S.A.

   Hoje
sei que não serei o “mais jovem em nada”. As ilusões do jovem bem sucedido se perderam no tempo, e o que resta aqui pouco lembra quem fui há sete ou oito anos. Caminhei pela tarde mas até mesmo o mundo não se assemelha ao que fui. A ponte por onde corria uma água turva com pedras manchadas, hoje tem duas pistas, cada dividida em três vias, cujos carros vêm e vão a maior ou menos quantidade até mesmo nas madrugadas de domingo. Já a mercearia em que atentamente eu procurava em seus três corredores algo entre biscoitos, macarrão, gelatina e pudim, algo que pudesse pagar com os trocados que tinha pressionado na palma da mão, hoje tem acesso proibido. Há grades nas portas e a mesma senhora que lá trabalhava hoje mais senhora ainda nos atende pelas grades e perguntando o que desejamos, recebe e nos entrega. Foi-se o pegue-e-page. O desespero do medo transforma o mundo. Eu já não consigo relaxar diante da visão da minha janela, do vento fresco que batia no meu rosto mesmo nas tardes de verão, e subir em cima da casa nas tardes de melancolia não me alivia em nada. Há dois dias de hoje, minha irmã fez aniversário e não me convidou. Até mesmo do ódio que ela demonstrava, da unha que ela passava no meu braço quando eu mexia em suas fitas k7, até disto eu sinto falta. Assim como as k7, as VHS, as tantas e tantas moedas e cédulas de dinheiro que eu colecionava, o dinheiro nosso mudava a cara a cada ano, eram moedas e moedas com as imagens mais diferentes, os cruzeiros, cruzados, eram bichos intenções. Estou cansado do beija-flor, da tartaruga, da garça, e daquela arara vermelha feia, e aquele mico leão dourado amarelo. A onça ainda dá uma certa alegria, e a Garoupa teve seu charme quando o salário mínimo era 75 Reais. Pensar que um brasileiro trabalhava um mês e com o dinheiro não recebia uma nota. Mas nunca precisei mais que os trocados que eu tinha pressionado na mão.

    Hoje fui num lanchinho numa esquina da Avenida Goiás no Centro que sempre ia quando era jovem, não tinha mudado muito, isto me deixou muito feliz. A receita da pizza era a mesma, seu queijo derretido se mostrava vistoso e pegajoso no vidro da estufa. O homem que me atendia não era mais velho que antes, mas seu filho que diariamente o ajudava durante anos, agora fazia faculdade e estava outro jovem contratado.

   As crianças que eram tão crianças quando eu me achava um adolescente esperto, agora já sabem falar de sexo. Me surpreendo, algumas tão sábia e outras estão tolas. Sempre me lembrando os adultos.

Sei que estou longe do fim definitivo de minha vida, mas sinto próxima muitos fins. Descubro que o mundo não se acaba de uma vez. O nosso mundo não. Ele é conseqüência gradativa de perdas. Acho, ainda não sei, que no final nós mesmos cansamos disto aqui. As coisas não são com gostaríamos que fossem, como sonhávamos quando éramos jovens, e por sobre, o mundo deixou de ser como era.

   No final Deus estará a contemplar um Apocalipse lento e frustrante, cuja expectativa sempre era muito distante do esperado. E eu? Confesso que ainda não tenho certeza sobre onde quero estar. Hoje penso que estaria sentado em algum corpo celeste vagando na eternidade, deslumbrando as belezas encantadoras do Infinito.

23.07.09

Sílvio Lôbo

 {jcomments on}

Deixe seu comentário

Todos os campos * são obrigatórios