Estrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativa
 

 

Este texto é fictício, qualquer semelhança com pessoas ou fatos é mera coincidência.


Não se preocupe em ler este email. Ele foi escrito sob uma grande árvore na Praça do Metrô próximo ao aeroporto onde todos os dias pego o ônibus pra faculdade. Hoje está uma bagunça, o presidente estará na Praça Antônio Matos, muitos ônibus que cortariam Filadélfia e Custódio como o 007 Central já anunciavam no ponto que só iriam até a vila Divina e que de lá seguira direto ao Termina Sul sem paradas. Outros que costumam ter intervalos de 20 a 30 minutos depois de grande demora chegavam em dois, o que demonstram que um grande congestionamento fazia do Setor Central um grande gargalo no fluxo de veículos.

 

 

É muito comum que eu escreva aqui, rabisco em folha de papel e nelas ficam até se perderem em algum caderno velho, esta é diferente, é uma carta e deve ser entregue, porém não há aqui um intuito formal. Meu ônibus sempre demora um pouco, se perco algum por pouco, devo esperar 30 minutos, com freqüência é comum que ele atrase um pouco mais, porém o recorde é 67 minutos, o que pra mim já ultrapassou em muito a barreira psicológica de uma hora.

Mas há motivos. Hoje estou triste. As coisas acontecem tão ruins comigo. Não consigo bater os joelhos no chão e agradecer por não ter um câncer no intestino, ou por ter as duas pernas. Já sabia o poeta que o essencial é invisível aos olhos, já sabe o senso comum que há inútil imaginas alguém em pior estado que nós como forma de consolar. Parece que só a Igreja e a minha madrinha ainda acreditam na vertente que afirma que “poderia ser pior”.

Ah, claro que pode.


Eu costumo dizer que esta estória de “não poder ser pior” é pura falta de criatividade. Sem muito esforço intelectual consigo tornar qualquer situação ruim em outra ainda pior. Cito a vaca. Comumente um momento difícil pode se tornar mais medonho com a simples inclusão deste ruminante.

 

 

Mas o fato é que não tenho gozado de muita sorte. Eu depois de 29 anos de paciência e sorriso constante pareço fraquejar.

Quem já esteve minutos comigo sabe de meu constante animo. Um dom de ver saídas, soluções e belezas. Mas grande ou menos tolerante, a frustração há de ter nesta vida um limite.

Ontem encontrei uma menina nova. Todos sabem que não sou de “ficar”, estas “pegações” jovem sem sentido. Outra jovem encantada com sabe lá Deus o que, com a afirmação “Estou completamente apaixonada por você”, disse. Penso que exista algo anormal nisto tudo. Não dá para se apaixonar tão constantemente. Elas não vêem que eu não passo as poucas camisas que uso, ou que meu tênis não tem solado, ou que meu sapato não tem cadarços. Parecem procurar alguém que as ouçam. E creio que no “fundo” eu também procure isto. Meio feminino eu.

Da faculdade sai caminhando com esta menina, ela disse que se agradava fazer isto, uma modelo com uma monografia sobre a Inconstitucionalidade de encargos tributários que gosta de caminhar. Como aconselhou um demônio a seu amigo, “encontre uma mulher boa e gostosa e sua vida tornar-se-á um inferno”.

Ela queria caminhar, e como este meio de transporte, as pernas, disponho, eu não neguei. Foi agradabilíssimo. Comi um grande sanduíche. Ela não comia, dizia que já tinha comido. Preocupação com comer, algo q’eu nunca tive, mas estava tranqüilo.

(chegou o ônibus)

(já esperando o ônibus pra voltar pra casa, 22h)

Tudo era tão encantador. Uma modelo encantadoramente inteligente. Aparentemente satisfeita em caminhar, chegamos a porta de sua casa, próximo a Área II da UCG. Ouvi mais uma vez palavras de paixão quando um jovem passou. Eu olhei pra ele, senti pena. Era noite, e ele solitário ali. Enquanto fazíamos aquele jogo de charme de melhor não entrar, o rapaz jogou um rolo de papel no chão descobrindo uma faca de churrasco.

O resto da noite foi junto a um jovem alucinado movimentando freneticamente uma faca longa e estreita, gritando e anunciando que iria nos furar.

Num falseamento moral-literário já escrevi um texto que criou polêmica, “Falos, mulheres e carros” escrito em meio a insônia falava buscava defender uma estatística real de como o universo masculino acadêmico colocava a importância do carro em primeiro lugar, “pegar mulher”. Este pequeno texto causou uma polêmica.

Pareço hoje mais errado. A visão de um cara com uma faca na direção da menina me causou uma tristeza intensa que tirou do meu rosto o sorriso.

Em mim aquele curto instante se desdobrou em milhares de cenas. Lembro do rapaz se aproximando, e de como senti pena de seu abandono. Lembro de olhar duas vezes para o capacete de carona que eu carregava e acabava de colocar no chão. Poderia ter matado ele. Era suficientemente capaz de matá-lo em golpes de capacete. Mas eu não tinha limitar a força o impacto suficiente para Pará-lo sem matá-lo. No instante joguei meus pertences a frente mas longe o suficiente que ele teve que dar um passo pra trás, e ter afastado o rapaz da menina me satisfez. Ele pegou o celular, o dinheiro. Ele partiu correndo, eu acompanhei a menina até o portão falei pra ela entrar sem tirar os olhos do rapaz que corria afastando. Eu queria matá-lo, e torturá-lo. Era tão fácil pra mim. A menina via isto em meus olhos. E pediu que eu não fosse, me fez prometer que não fosse.

Mandei que ela fechasse o portão, e ela o fez, mas pelo império de minha voz, mas não de relembrar que eu tinha prometido a ela.

Ainda hesitei alguns segundos. Eu prometia, era normal que eu não arriscasse quando existisse alguma chance de me machucar, ou de pior ainda machucar uma menina. Mas como seria agradável pegá-lo algumas esquinas acima sem ter uma menina pra ele ameaçar com uma faca, eu poderia quebrar os dedos dele.

Lembrei da aula de Teologia, da discussão sobre o Aborto, de um cara meio gordo e meio alto de camisa meio riscada com um cheiro de balada. Na aula ele me focou com uma daquelas falácias pobre de que “se minha filha tivesse sido estuprada se eu não faria o aborto”. Fico pensando se ele fosse um juiz, será que ele já pensou em julgar um assalto sofrido. Quando se está como vítima se torna um monstro, o ladrão se contentou com meu celular, eu não contentaria com apenas isto. Não mesmo! O assaltante foi até cordial com o que eu faria com ele. Ainda bem que é protegida a imparcialidade, neutralidade do juízo.

Ao mais, meu dia foi horrível. Eu que tinha pena do meu agressor agora tenho pena de mim.

A tarde acabei entrando na Igreja. Gosto de ir na Matriz de Filadélfia. Fico lá sentado nas cadeiras, em meio ao vazio conversando com uma possível entidade superior que nunca me ouve.

Já prometi pra Deus que não vou mais ficar desacreditando Ele, ou dizendo que Sua existência é condicionada a nossa. Fiz um bocado de acordos com Ele. Eu até que cumpro, já Ele consente com um silêncio espacial.

Na porta da Igreja tinha um irmão de rua. Passei a tarde conversando com ele. Fiquei surpreso, pois ele me mostrou os pés rachados e disse que aquilo estava incomodando horrores. Todo mundo vê-los com pés e cheiro peculiar. Falam, “olha o pé inchado”, hoje eu conheci um “pé-inchado” que não se sentia bem com seus pés. Ele me contou as mesmas histórias de sempre. Perdeu o dinheiro, destruiu o patrimônio por administrá-lo com álcool.

Terminei a tarde acompanhando ele a Assistente Social da Igreja, está marcado a reunião com AA, ele tem uma filha aqui na cidade, e até tem uma aposentadoria. A fonte de renda o coloca bem melhor que os outros milhares de irmãos de rua.

Tenho total convicção que ele nunca irá no AA. Que a tarde indo com ele de um lado para o outro foi totalmente inútil. Mas não fico bravo com isto.

Durante muitos anos não fui capaz de ficar bravo com as pessoas, mas apenas com Deus. Mas ficava triste com o mundo. Deus não faz as coisas que eu peço pra Ele.

 

Está é uma obra de ficção

 

Deixe seu comentário

Todos os campos * são obrigatórios