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Moratória: dilatação de prazo concedida pelo credor ao devolver para o pagamento de uma dívida.

Conforme brilhante resumo de Célia A. N. Passoni da Editora Núcleo, comenta a professora que a peça A Moratória constitui-se em três atos, tendo o cenário dividido em dois planos. Em um, uma sala espaçosa de uma antiga e tradicional fazenda de café; em outro, uma sala modesta mobiliada onde se vê, em primeiro plano, uma máquina de costura. É através desses dois cenários que o autor consegue fazer o presente e o passado próximo. O espectador, em um mesmo instante, através da mudança de planos, entra em contato com duas realidades distintas, ligada somente pelas personagens. Para efeito do resultado, a estória será narrada linearmente.

Quim [Joaquim] é fazendeiro de café, afeiçoado a terra, mas acaba sendo levado à ruína, por maus negócios. Tem setenta anos e representa o orgulho de um nome, já sem encontrar respaldo entre os cidadãos de uma cidade que está transformada com a presença de elementos estranhos à casta tradicional. Diz Joaquim: 'Não sei como, minha filha, mas de repente, senti como se estivesse só naquela cidade. Parecia que todas as portas estavam fechadas para mim. Eu não conhecia mais ninguém. Percebia que atrás das janelas todos me olhavam e... ninguém... ninguém...' Mergulhado em sua solidão, nutrido pela esperança de recuperação, só encontra amparo na família. A mulher Helena é a mais corajosa, soube enfrentar melhor a situação, e a filha Lucília tornou-se o arrimo da família, agora vivendo dos proventos de sua costura, uma vez que o irmão, Marcelo, não se adapta a nenhum emprego.

Fora da família estão Olímpio, advogado, filho do rival político de Quim, mas apaixonado Poe Lucília. Elvira, irmã de Quim, mulher rica e 'caridosa' que entrega café e outras coisas que vêm da fazenda em troca das costuras 'grátis' da sobrinha. Não tem filhos e vive envolvida com a assistência dada a um asilo. Nesse pequeno universo, as personagens vão sendo colocadas à mercê de um destino cruel. Quim, em torno do qual a história gira, alimenta uma esperança de retornar à fazenda, que foi à praça, para saldar as dívidas. A crise do café não permitiu a venda, a florada não foi boa; a chuva tardou, o governo não fixou um teto mínimo para o café, não há dinheiro. Só resta a esperança de poder recuperar a fazenda, a esperança de uma moratória que todos sabem não vir.

A obra de Jorge Andrade constitui um ato de reflexão sobre a realidade paulista em seus aspectos sociais, morais e psicológicos. O tema da
decadência dos latifúndios cafeeiro representa o fim de toda uma classe patriarcal e semifeudal de aristocratas sucumbidos à crise econômica de 1929 e a nova ordem social imposta por Vargas em 1930. ao mesmo tempo, focaliza em seu interior o conflito de gerações, o conflito de valores tradicionais em uma sociedade que vive a rápida mudança provocada pelo êxodo rural, pelo dilatamento das cidades e pelas mudanças das elites. Marcelo é o filho desesperançado, inadaptado, aquele que vive uma outra realidade que na a do pai, aquele que é capaz de proferir palavras rudes e no entanto, verdadeiras, apontando a terrível realidade: 'O senhor finge não perceber que não fazemos mais parte de nada, que nosso mundo está irremediavelmente destruído... As regras para viver são outras, regras que não compreendemos nem aceitamos... tudo agora é diferente, tudo mudou. Só nós é que não.


Estamos aqui morrendo lentamente...'

Lucília é filha solteirona que vê seu casamento com Olímpio frustrado pelo autoritarismo paterno. Não se entrega aos sonhos e às esperanças do pai, que acha poder reaver a fazenda. É ela que, com força e convicção, recupera a dignidade da família, costurando furiosamente. É ela que procura lutar pela realidade bruta, protegendo o pai contra as intempéries:

'Se a senhora [Elvira] merecesse respeito, teria tido um pouco de amor por seu irmão, piedade ao menos. Gostaria que tivesse assistido à chegada deles, quando vieram da fazenda. Só aí poderia compreender até que ponto sofreram! Com o relógio, os quadros e esse... esse galho de jabuticabeira nas mãos... pareciam duas crianças assustadas, com medo de serem repreendidas. Através de cada gesto, de cada olhar, havia um pedido de perdão, como se eu... eu pudesse censurá-los em alguma coisa. Egoísta! A senhora é uma mulher má. Papai é mesmo de boa-fé, tem bom coração, caso contrário teria posto à senhora daqui para fora. O que eles sofreram, você e tio Augusto hão de pagar.'

Com simplicidade, Jorge Andrade vai chegando ao clímax da peça, a hora da revelação e, conseqüentemente, a hora em que Joaquim se depara com a verdade / realidade, que nós, espectadores, conhecemos desde o primeiro momento. É pujante a dor de homem e a ela estamos irmanados pela indescritível capacidade da arte de fazer o tempo / espaço identificar-se com outro espaço / tempo do espectador.

[Joaquim volta à sala no Segundo Plano e pega o galho da jabuticabeira que havia esquecido em cima da mesa. Torna a sair, procurando não olhar nada. Depois que Joaquim sai, as luzes do Segundo Plano vão diminuindo pouco a pouco até a sala ficar escura.]

PRIMEIRO PLANO

Lucília: [Primeiro Plano] Com certeza, desencontramos
Helena: Procurei o Quim e não consegui encontrar.
Lucília: Deve estar com o Olímpio.
Helena: Fui ao empório onde ele costumava ir, à igreja, a toda parte!
Lucília: A senhora não devia andar assim.
Helena: Se ele pelo menos não fosse tão violento.
Lucília: Precisamos deixar o papai protestar à vontade, e ficar quietas. É um direito que ele tem. Não pense mais nisto.
Helena: [Aflita] Você sabe como é o pai, Lucília! Como não hei de pensar?
Lucília: Não vai acontecer nada, mamãe. Acalme-se.
Helena: Ele já não tem idade para enfrentar essas coisas.
Lucília: Mais uma razão para nos mantermos calmas. [Impaciente] Não podemos se descontrolar. Assim ele não sofrerá tanto.
[Volta á censura]
Helena: [Olhando os objetos em cima da mesa] Não seria melhor guardar tudo
isto?
Lucília: Por quê? Não foi ele mesmo quem pôs aí?
Helena: Foi, mas agora... pode ser que...
Lucília: Ele terá que ver um dia; é preferível que veja de uma vez. [Pausa]
Helena: Meu Deus! por que é que demoram tanto?!
Lucília: Mamãe! Tenha calma.
Helena: [Entregando-se ao desespero] Não agüento mais. Não agüento mais,
minha filha.


Lucília: [Abraça Helena] Não se preocupe. O Olímpio saberá dar a notícia.
Helena: [Aflita] Preferia... preferia...
Lucília: O quê? Diga, mamãe.
Helena: Gostaria que o Olímpio mentisse.
Lucília: Não! Chega! Vamos enfrentar de uma vez a realidade.
Helena: Tenho medo, Lucília!
Lucília: Precisamos aceitar e não pensar mais nisto.
Helena: Uma pessoa como seu pai não vive sem esperança. E era a única coisa
que lhe restava.
Lucília: [Perde a paciência] Mamãe! Não fique pensando nisto, pelo amor de
Deus!
Helena: Não consigo.
Lucília: Papai é um homem forte.
Helena: Ele sempre desejou morrer no meio do campo, como o finado
Martiniano, e agora...!
Lucília: Onde terá ido? A senhora foi ao ponto das jardineiras? Ele vai lá todos
os dias.
Helena: Você também tem medo, minha filha?
Lucília: [Controla-se] Não. Ele gosta de ver as jardineiras que chegam e
partem para as fazendas.
Helena: Ele estava lá, mas... [Pára e fica muito excitada]
Lucília: [Temerosa] Que foi, mãe?
Helena: Chegaram!
Lucília: Por favor acalme-se.
Helena: Mãe de Deus, rogai por nós!
Marcelo: [Voz] sente-se papai. Vou chamar a mamãe.
Joaquim: [Voz] Não.

[Ouve-se o barulho de algumas coisas que cai no chão. Lucília fica imóvel, tesa, olhando para o corredor. Percebe-se que Helena continua rezando. Joaquim aparece no corredor, pára e fica com os olhos presos em Helena. Faz um gesto como se pedisse desculpa; há nele uma angústia inexprimível.]

Lucília: [Amargurada] Papai!
Helena: Quim!

[Joaquim vai até a mesa e encosta-se.]
Lucília: Sente-se papai.
Helena: Quim, meu velho! Que fizeram com você?
Lucília: [Procurando se conter] Papai! [Marcelo e Olímpio aparecem no
corredor]
Helena: Sente-se, Quim. Não quer se sentar?
Joaquim: [Tentando ser violento] Por que é que todos querem que eu me
sente?
Helena: Por nada, nada!

[Joaquim, depois de pegar um trapo na mesa, senta-se, lentamente. Pausa longa. Joaquim começa a desfiar o trapo.]

Lucília: [Avança na direção do pai] Não! Isso não! Papai! Proteste, grite, fale alguma coisa. Não fique assim! Não fique assim,
pelo amor de Deus!
Helena: Lucília!
Lucília: É isso mesmo. Proteste. Proteste, papai. O senhor tem direito, nós temos esse direito. As terras são nossas, sempre foram nossas. Ninguém pode nos tomar. Papai! Ainda há esperança, daremos um


jeito; é preciso que o senhor não aceite, nós
não podemos aceitar.
Olímpio: [Tente segurar Lucília] Lucília!
Lucília: [Repele Olímpio] deixe-me.
Helena: Minha filha respeite o sofrimento de seu pai.
Lucília: Não! Não quero ver meu pai assim. Não quero, não quero. Deve haver
um jeito. Olímpio! Diga que há. Minta. É preciso que você minta!
Olímpio: Mentir como, Lucília?
Lucília: Não quero que meu pai fique sem esperança. Não quero. [Bate com as
mãos no peito de Olímpio] Não quero! Não...

[Lucília caí sentada à máquina, ainda repetindo 'NÃO'. Pouco a pouco, começa
a soluçar.]

Joaquim: [Olha para Lucília] Eu... eu não sofro mais, não sofro mais, minha
filha. Não precisa ter medo. Eu... eu...

[Lucília não resiste mais e começa a soluçar fortemente. Todo seu corpo é sacudido pela explosão do desespero e ela se agarra em Olímpio. Olímpio leva-á para fora da sala. Helena caminha lentamente e vai ficar atrás da cadeira de Joaquim; põe a mão em seu ombro. Marcelo senta-se no banco.]

Joaquim: [Subitamente aflito] Helena! E as minhas jabuticabeiras?
Helena: Não pense, Quim, não pense mais nisto. Não faltará chuva.
Joaquim: [Pausa] Em que mês estamos?
Marcelo: Em abril.
Joaquim: Abril! [Pausa] O café está sendo arruado!
[As luzes vão abaixando lentamente]
Marcelo: Já não se ouve o canto das cigarras!
Joaquim: O feijão da seca começa a soltar vagens!
Helena: Os que plantaram... vão começar a colher!

[As vozes se transformam num murmúrio e as luzes apagam definitivamente.]

 

  

 

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