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Capítulo I
       Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu porsi na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tãoduro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou oarredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o quala   colcha   dificilmente   mantinha   a   posição   e   estava   a   ponto   de   escorregar.Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmentefinas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.       Que me aconteceu ? - pensou. Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgarquarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre asquatro  paredes  que  lhe  eram  familiares.  Por  cima  da  mesa,  onde  estava  deitado,desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de roupas: Samsaera caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara deuma  revista  ilustrada  e  colocara  numa  bonita  moldura  dourada.  Mostrava  umasenhora,  de  chapéu  e  estola  de  peles,  rigidamente  sentada,  a  estender  aoespectador um enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia! Gregório desviouentão a vista para a janela e deu com o céu nublado - ouviam-se os pingos dechuva a baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melancólico. Nãoseria  melhor  dormir  um  pouco  e  esquecer  todo  este  delírio?  -  cogitou.  Mas  eraimpossível, estava habituado a dormir para o lado direito e, na presente situação,não podia virar-se. Por mais que se esforçasse por inclinar o corpo para a direita,tornava  sempre  a  rebolar,  ficando  de  costas.  Tentou,  pelo  menos,  cem  vezes,fechando os olhos, para evitar ver as pernas a debaterem-se, e só desistiu quandocomeçou   a   sentir   no   flanco   uma   ligeira   dor   entorpecida   que   nunca   antesexperimentara. Oh, meu Deus, pensou, que trabalho tão cansativo escolhi! Viajar,dia sim, dia não. É um trabalho muito mais irritante do que o trabalho do escritóriopropriamente  dito,  e  ainda  por  cima  há  ainda  o  desconforto  de  andar  sempre  aviajar,  preocupado  com  as  ligações  dos  trens,  com  a  cama  e  com  as  refeiçõesirregulares, com conhecimentos casuais, que são sempre novos e nunca se tornamamigos  íntimos.  Diabos  levem  tudo  isto!  Sentiu  uma  leve  comichão  na  barriga;arrastou-se  lentamente  sobre  as  costas,  -  mais  para  cima  na  cama,  de  modo  aconseguir  mexer  mais  facilmente  a  cabeça,  identificou  o  local  da  comichão,  queestava  rodeado  de  uma  série  de  pequenas  manchas  brancas  cuja  natureza  nãocompreendeu  no  momento,  e  fez  menção  de  tocar  lá  com  uma  perna,  masimediatamente a retirou, pois, ao seu contato, sentiu-se percorrido por um arrepiogela- do. Voltou a deixar-se escorregar para a posição inicial. Isto de levantar cedo,pensou,  deixa  a  pessoa  estúpida.  Um  homem  necessita  de  sono.  Há  outroscomerciantes que vivem como mulheres de harém. Por exemplo, quando volto parao hotel, de manhã, para tomar nota das encomendas que tenho, esses se limitam asentar-se à mesa para o pequeno almoço. Eu que tentasse sequer fazer isso com omeu patrão: era logo despedido. De qualquer maneira, era, capaz de ser bom paramim - quem sabe? Se não tivesse de me agüentar, por causa dos meus pais, hámuito tempo que me teria despedido; iria ter com o patrão e lhe falar exatamente oque penso dele. Havia de cair ao comprido em cima da secretária! Também é um hábito esquisito, esse de se sentar a uma secretária em plano elevado e falar parabaixo  para  os  empregados,  tanto  mais  que  eles  têm  de  aproximar-se  bastante,porque  o  patrão  é  ruim  de  ouvido.  Bem,  ainda  há  uma  esperança;  depois  de  tereconomizado o suficiente para pagar o que os meus pais lhe devem - o que develevar outros cinco ou seis anos -, faço-o, com certeza. Nessa altura, vou me libertarcompletamente. Mas, para agora, o melhor é me levantar, porque o meu trem parteàs cinco.       Olhou para o despertador, que fazia tique-taque na cômoda. Pai do Céu! -pensou. Eram seis e meia e os ponteiros moviam-se em silêncio, até passava dameia hora, era quase um quarto para as sete. O despertador não teria tocado? Dacama, via-se que estava corretamente regulado para as quatro; claro que devia tertocado. Sim, mas seria possível dormir sossegadamente no meio daquele barulhoque  trespassava  os  ouvidos?  Bem,  ele  não  tinha  dormido  sossegadamente;  noentanto, aparentemente, se assim era, ainda devia ter sentido mais o barulho. Masque faria agora? o próximo trem saía às sete; para o apanhar tinha de correr comoum doido, as amostras ainda não estavam embrulhadas e ele próprio não se sentiaparticularmente fresco e ativo. E, mesmo que apanhasse o trem, não conseguiriaevitar uma reprimenda do chefe, visto que o porteiro da firma havia de ter esperadoo trem das cinco e há muito teria comunicado a sua ausência. O porteiro era uminstrumento do patrão, invertebrado e idiota. Bem, suponhamos que dizia que estavadoente? Mas isso seria muito desagradável e pareceria suspeito, porque, durantecinco anos de emprego, nunca tinha estado doente. O próprio patrão certamente irialá a casa com o médico da Previdência, repreenderia os pais pela preguiça do filho eporia  de  parte  todas  as  desculpas,  recorrendo  ao  médico  da  Previdência,  que,evidentemente,  considerava  toda  a  humanidade  um  bando  de  falsos  doentesperfeitamente   saudáveis.   E   enganaria   assim   tanto   desta   vez?   Efetivamente,Gregório  sentia-se  bastante  bem,  à  parte  uma  sonolência  que  era  perfeitamentesupérflua depois de um tão longo sono, e sentia-se mesmo esfomeado.       À medida que tudo isto lhe passava pela mente a toda a velocidade, sem sercapaz de resolver a deixar a cama - o despertador acabava de indicar um quartopara  as  sete,  ouviram-se  pancadas  cautelosas  na  porta  que  ficava  por  detrás  dacabeceira da cama.
       - Gregório - disse uma voz, que era a da mãe, é um quarto para as sete.Não tem de apanhar o trem?
       Aquela  voz  suave!  Gregório  teve  um  choque  ao  ouvir  a  sua  própria  vozresponder-lhe,  inequivocamente  a  sua  voz,  é  certo,  mas  com  um  horrível  epersistente guincho chilreante como fundo sonoro, que apenas conservava a formadistinta das palavras no primeiro momento, após o que subia de tom, ecoando emtorno delas, até destruir-lhes o sentido, de tal modo que não podia ter-se a certezade tê-las ouvido corretamente. Gregório queria dar uma resposta longa, explicandotudo, mas, em tais circunstâncias, limitou-se a dizer:
       - Sim, sim, obrigado, mãe, já vou levantar.
       A porta de madeira que os separava devia ter evitado que a sua mudança devoz fosse perceptível do lado de fora, pois a mãe contentou-se com esta afirmação,afastandose  rapidamente.  Esta  breve  troca  de  palavras  tinha  feito  os  outrosmembros da família notarem que Gregório estava ainda em casa, ao contrário do que esperavam, e agora o pai batia a uma das portas laterais, suavemente, emboracom o punho.
       - Gregório, Gregório - chamou - , o que você tem?
       E, passando pouco tempo depois, tornou a chamar, com voz mais firme:
       - Gregório! Gregório!
       Junto  da  outra  porta  lateral,  a  irmã  chamava,  em  tom  baixo  e  quaselamentoso:
       - Gregório? Não se sente bem? Precisa de alguma coisa?
       Respondeu a ambos ao mesmo tempo:
       - Estou quase pronto - e esforçou-se o máximo por que a voz soasse tãonormal  quanto  possível,  pronunciando  as  palavras  muito  claramente  e  deixandograndes  pausas  entre  elas.  Assim,  o  pai  voltou  ao  breve  almoço,  mas  a  irmãsegredou:       - Gregório, abre esta porta, anda.
       Ele  não  tencionava  abrir  a  porta  e  sentia-se  grato  ao  prudente  hábito  queadquirira em viagem de fechar todas as portas à chave durante a noite, mesmo emcasa.       A    sua    intenção    imediata    era    levantar-se    silenciosamente    sem    serincomodado, vestir-se e, sobretudo, tomar o breve almoço, e só depois estudar quemais  havia  a  fazer,  dado  que  na  cama,  bem  o  sabia,  as  suas  meditações  nãolevariam a qualquer conclusão sensata. Lembrava-se de muitas vezes ter sentidopequenas   dores   enquanto   deitado,   provavelmente   causadas   por   posiçõesincômodas, que se tinham revelado puramente imaginárias ao levantar-se, e ansiavafortemente por ver as ilusões desta manhã desfazerem-se gradualmente. Não tinhaa menor dúvida de que a alteração da sua voz outra coisa não era que o prenúnciode um forte resfriado, doença permanente dos caixeiros-viajantes.       Libertar-se da colcha era tarefa bastante fácil: bastava-lhe inchar um pouco ocorpo   e   deixá-la   cair   por   si.   Mas   o   movimento   seguinte   era   complicado,especialmente  devido  à  sua  invulgar  largura.  Precisaria  de  braços  e  mãos  paraerguer-se; em seu lugar, tinha apenas as inúmeras perninhas, que não cessavam deagitar-se em todas as direções e que de modo nenhum conseguia controlar. Quandotentou dobrar uma delas, foi a primeira a esticar-se, e, ao conseguir finalmente quefizesse o que ele queria, todas as outras pernas abanavam selvaticamente, numaincômoda  e  intensa  agitação.  Mas  de  que  serve  ficar  na  cama  assim  sem  fazernada, perguntou Gregório a si próprio.       Pensou que talvez conseguisse sair da cama deslocando em primeiro lugar aparte inferior do corpo, mas esta, que não tinha visto ainda e da qual não podia teruma idéia nítida, revelou-se difícil de mover, tão lentamente se deslocava; quando,finalmente,  quase  enfurecido  de  contrariedade,  reuniu  todas  as  forças  e  deu  umtemerário  impulso,  tinha  calculado  mal  a  direção  e  embateu  pesadamente  naextremidade   inferior   da   cama,   revelando-lhe   a   dor   aguda   que   sentiu   serprovavelmente aquela, de momento, a parte mais sensível do corpo.
    Visto isso, tentou extrair primeiro a parte superior, deslizando cuidadosamentea  cabeça  para  a  borda  da  cama.  Descobriu  ser  fácil  e,  apesar  da  sua  largura  evolume, o corpo acabou por acompanhar lentamente o movimento da cabeça. Aoconseguir,  por  fim,  mover  a  cabeça  até  à  borda  da  cama,  sentiu-se  demasiadoassustado para prosseguir o avanço, dado que, no fim de contas caso se deixassecair naquela posição, só um milagre o salvaria de magoar a cabeça. E, custasse oque custasse, não podia perder os sentidos nesta altura, precisamente nesta altura;era preferível ficar na cama.       Quando,  após  repetir  os  mesmos  esforços,  ficou  novamente  deitado  naposição primitiva, suspirando, e viu as pequenas pernas a entrechocarem-se maisviolentamente que nunca, se possível, não divisando processo de introduzir qualquerordem naquela arbitrária confusão, repetiu a si próprio que era impossível ficar nacama e que o mais sensato era arriscar tudo pela menor esperança de libertar-sedela. Ao mesmo tempo, não se esquecia de ir recordando a si mesmo que era muitomelhor a reflexão fria, o mais fria possível, do que qualquer resolução desesperada.Nessas alturas, tentava focar a vista tão distintamente quanto podia na janela, mas,infelizmente, a perspectiva da neblina matinal, que ocultava mesmo o outro lado darua  estreita,  pouco  alívio  e  coragem  lhe  trazia.  Sete  horas,  disse,  de  si  para  si,quando  o  despertador  voltou  a  bater,  sete  horas,  e  um  nevoeiro  tão  denso,  pormomentos,  deixou-se  ficar  quieto,  respirando  suavemente,  como  se  porventuraesperasse que um repouso tão completo devolvesse todas as coisas à sua situaçãoreal e vulgar.       A seguir, disse a si mesmo: Antes de baterem as sete e um quarto, tenho queestar fora desta cama. De qualquer maneira, a essa hora já terá vindo alguém doescritório  perguntar  por  mim,  visto  que  abre  antes  das  sete  horas.  E  pôs-se  abalouçar todo o corpo ao mesmo tempo, num ritmo regular, no intuito de rebocá-lopara  fora  da  cama.  Caso  se  desequilibrasse  naquela  posição,  podia  proteger  acabeça  de  qualquer  pancada  erguendo-a  num  ângulo  agudo  ao  cair.  O  dorsoparecia ser duro e não era provável que se ressentisse de uma queda no tapete. Asua   preocupação   era   o   barulho   da   queda,   que   não   poderia   evitar,   o   qual,provavelmente, causaria ansiedade, ou mesmo terror, do outro lado e em todas asportas. Mesmo assim, devia correr o risco.       Quando estava quase fora da cama - o novo processo era mais um jogo queum  esforço,  dado  que  apenas  precisava   rebolar,  balouçando-se  para  um  lado  epara outro - , veio-lhe à idéia como seria fácil se conseguisse ajuda. Duas pessoasfortes  -  pensou  no  pai  e  na  criada  -  seriam  largamente  suficientes;  não  teriammais que meter-lhe os braços por baixo do dorso convexo, levantá-lo para fora dacama, curvarem-se com o fardo e em seguida ter a paciência de o colocar direito nochão,  onde  era  de  esperar  que  as  pernas  encontrassem  então  a  função  própria.Bem, à parte o fato de todas as portas estarem fechadas à chave, deveria mesmopedir  auxílio?  A  despeito  da  sua  infelicidade  não  podia  deixar  de  sorrir  ante  asimples idéia de tentar.       Tinha  chegado  tão  longe  que  mal  podia  manter  o  equilíbrio  quando  sebalouçava com força e em breve teria de encher-se de coragem para a decisão final,visto que daí a cinco minutos seriam sete e um quarto... quando soou a campainhada porta. É alguém do escritório, disse, com os seus botões, e ficou quase rígido, aomesmo  tempo  que  as  pequenas  pernas  sé  limitavam  a  agitar-se  ainda  maisdepressa. Por instantes, tudo ficou silencioso. Não vão abrir a porta, disse Gregório,de si para si, agarrando-se a qualquer esperança irracional. A seguir, a criada foi àporta,  como  de  costume,  com  o  seu  andar  pesado  e  abriu-a.  Gregório  apenas precisou ouvir o primeiro bom dia do visitante para imediatamente saber quem era: ochefe de escritório em pessoa. Que sina, estar condenado a trabalhar numa firmaem que a menor omissão dava imediatamente asa à maior das suspeitas! Seria quetodos os empregados em bloco não passavam de malandros, que não havia entreeles um único homem devotado e leal que, tendo uma manhã perdido uma hora detrabalho  na  firma  ou  coisa  parecida,  fosse  tão  atormentado  pela  consciência  queperdesse a cabeça e ficasse realmente incapaz de levantar-se da cama? Não teriabastado  mandar  um  aprendiz  perguntar-se  era  realmente  necessária  qualquerpergunta - , teria que vir o próprio chefe de escritório, dando assim a conhecer atoda a família, uma família inocente, que esta circunstância suspeita não podia serinvestigada por ninguém menos versado nos negócios que ele próprio? E, mais pelaagitação provocada por tais reflexões do que por qualquer desejo, Gregório reboloucom   toda   a   força   para   fora   da   cama.   Houve   um   baque   sonoro,   mas   nãopropriamente  um  estrondo.  A  queda  foi,  até  certo  ponto,  amortecida  pelo  tapete;também o dorso era menos duro do que ele pensava, de modo que foi apenas umbaque  surdo,  nem  por  isso  muito  alarmante.  Simplesmente,  não  tinha  erguido  acabeça com cuidado suficiente e batera com ela; virou-a e esfregou-a no tapete, dedor e irritação.
       - Alguma coisa caiu ali dentro - disse o chefe de escritório na sala contíguado  lado  esquerdo.  Gregório  tentou  supor  no  seu  íntimo  que  um  dia  poderiaacontecer ao chefe de escritório qualquer coisa como a que hoje lhe acontecera aele;  ninguém  podia  negar  que  era  possível.  Como  em  brusca  resposta  a  estasuposição, o chefe de escritório deu alguns passos firmes na sala ao lado, fazendoranger as botas de couro envernizado. Do quarto da direita, a irmã segredava parainformá-lo da situação:       - Gregório, está aqui o chefe de escritório.
       Eu  sei,  murmurou  Gregório,  de  si  para  si;  mas  não  ousou  erguer  a  voz  osuficiente para a irmã o ouvir.
       - Gregório - disse então o pai, do quarto à esquerda -, está aqui o chefede escritório e quer saber porque é que não apanhou o primeiro trem. Não sabemoso  que  dizer  pra  ele.  Além  disso,  ele  quer  falar  contigo  pessoalmente.  Abre  essaporta, faz-me o favor. Com certeza não vai reparar na desarrumação do quarto.       -  Bom  dia,  Senhor  Samsa,  saudava  agora  amistosamente  o  chefe  deescritório.       - Ele não está bem - disse a mãe ao visitante, ao mesmo tempo que o paifalava ainda através da porta, ele não está bem, senhor, pode acreditar. Se assimnão fosse, ele alguma vez ia perder um trem! O rapaz não pensa senão no emprego.Quase me zango com a mania que ele tem de nunca sair à noite; há oito dias queestá em casa e não houve uma única noite que não ficasse em casa. Senta-se ali àmesa,  muito  sossegado,  a  ler  o  jornal  ou  a  consultar  horários  de  trens.  O  únicodivertimento  dele  é  talhar  madeira.  Passou  duas  ou  três  noites  a  cortar  umamoldurazinha de madeira; o senhor ficaria admirado se visse como ela é bonita. Estápendurada  no  quarto  dele.  Num  instante  vai  vê-la,  assim  que  o  Gregório  abrir  aporta. Devo dizer que estou muito satisfeita por o senhor ter vindo. Sozinhos, nuncaconseguiríamos que ele abrisse a porta; é tão teimoso... E tenho a certeza de queele não está bem, embora ele não o reconhecesse esta manhã.6

       - Já vou - disse Gregório, lenta e cuidadosamente, não se mexendo umcentímetro, com receio de perder uma só palavra da conversa.       - Não imagino qualquer outra explicação, minha senhora - disse o chefe deescritório. - Espero que não seja nada de grave. Embora, por outro lado, deva dizerque nós, homens de negócios, feliz ou infelizmente, temos muitas vezes de ignorar,pura e simplesmente, qualquer ligeira indisposição, visto que é preciso olhar pelonegócio.       - Bem, o chefe de escritório pode entrar? - perguntou impacientemente opai de Gregório, tornando a bater à porta.       -  Não  -  disse  Gregório.  Na  sala  da  esquerda  seguiu-se  um  dolorososilêncio  a  esta  recusa,  enquanto  no  compartimento  da  direita  a  irmã  começava  asoluçar.Porque não se juntava a irmã aos outros? Provavelmente tinha-se levantadoda cama há pouco tempo e ainda nem começara a vestir-se. Bem, porque choravaela? Por ele não se levantar e não abrir a porta ao chefe de escritório, por ele estarem perigo de perder o emprego e porque o patrão havia de começar outra vez atrásdos pais para eles pagarem as velhas dívidas? Eram, evidentemente, coisas com asquais,  nesse  instante,  ninguém  tinha  de  preocupar-se.  Gregório  estava  ainda  emcasa e nem por sombras pensava abandonar a família. É certo que, de momento,estava deitado no tapete e ninguém conhecedor da sua situação poderia seriamenteesperar que abrisse a porta ao chefe de escritório. Mas, por tão pequena falta decortesia, que poderia ser plausivelmente explicada mais tarde, Gregório não iria porcerto ser despedido sem mais nem quê. E parecia-lhe que seria muito mais sensatodeixarem-no em paz por agora do que atormentá-lo com lágrimas e súplicas. É claroque a incerteza e a desorientação deles desculpava aquele comportamento.       - Senhor Samsa - clamou então o chefe de escritório, em voz mais alta -,que se passa consigo? Para aí barricado no quarto, a responder só por sins) e nãos,a  dar  uma  série  de  preocupações  desnecessárias  aos  seus  pais  e  -  diga-se  depassagem- a negligenciar as suas obrigações profissionais de uma maneira incrível!Estou a falar em nome dos seus pais e do seu patrão e peco-lhe muito a sério umaexplicação  precisa  e  imediata.  O  senhor  espanta-me,  espanta-me.  Julgava  que  osenhor era uma pessoa sossegada, em quem se podia ter confiança, e de repenteparece apostado em fazer uma cena vergonhosa. Realmente, o patrão sugeriu-meesta  manhã  uma  explicação  possível  para  o  seu  desaparecimento  -  relacionadacom o dinheiro dos pagamentos que recentemente lhe foi confiado - mas eu quasedei a minha solene palavra de honra de que não podia ser isso.
       Agora, que vejo como o senhor é terrivelmente obstinado, não tenho o menordesejo  de  tomar  a  sua  defesa.  E  a  sua  posição  na  firma  não  é  assim  tãoinexpugnável. Vim com a intenção de dizer-lhe isto em particular, mas, visto que osenhor está a tomar tão desnecessariamente o meu tempo, não vejo razão para queos  seus  pais  não  ouçam  igualmente.  Desde  há  algum  tempo  que  o  seu  trabalhodeixa muito a desejar; esta época do ano não é ideal para uma subida do negócio,claro,   admitamos   isso,   mas,   uma   época   do   ano   para   não   fazer   negócioabsolutamente nenhum, essa não existe, Senhor Samsa, não pode existir.
       - Mas, senhor - gritou Gregório, fora de si e, na sua agitação, esquecendotodo  o  resto,  vou  abrir  a  porta  agora  mesmo.  Tive  uma  ligeira  indisposição,  umataque de tonturas, que não me permitiu levantar-me. Ainda estou na cama. Mas mesinto bem outra vez. Estou a levantar-me agora. Dê-me só mais um minuto ou dois!Não estou, realmente, tão bem como pensava. Mas estou bem, palavra. Como uma coisa destas pode repentinamente deitar uma pessoa abaixo. Ainda ontem à noiteestava perfeitamente, os meus pais que o digam; ou, antes, de fato, tive um levepressentimento. Deve ter mostrado indícios disso. Porque não o comuniquei eu aoescritório! Mas uma pessoa pensa sempre que uma indisposição há de passar semficar em casa. Olha, senhor, poupe os meus pais! Tudo aquilo por que me repreendenão  tem  qualquer  fundamento;  nunca  ninguém  me  disse  uma  palavra  sobre  isso.Talvez o senhor não tenha visto as últimas encomendas que mandei. De qualquermaneira,  ainda  posso  apanhar  o  trem  das  oito;  estou  muito  melhor  depois  destedescanso de algumas horas. Não se prenda por mim, senhor; daqui a pouco voupara  o  escritório  e  hei  de  estar  suficientemente  bom  para  o  dizer  ao  patrão  eapresentar-lhe desculpas!       Ao mesmo tempo que tudo isto lhe saía tão desordenadamente de jacto queGregório mal sabia o que estava a dizer, havia chegado facilmente à cômoda, talvezdevido  à  prática  que  tinha  tido  na  cama,  e  tentava  agora  erguer-se  em  pé,socorrendo-se dela. Tencionava, efetivamente, abrir a porta, mostrar-se realmente efalar  com  o  chefe  de  escritório;  estava  ansioso  por  saber,  depois  de  todas  asinsistências, o que diriam os outros ao vê-lo à sua frente. Se ficassem horrorizados,a  responsabilidade  já  não  era  dele  e  podia  ficar  quieto.  Mas,  se  o  aceitassemcalmamente, também não teria razão para preocupar-se, e podia realmente chegar àestação  a  tempo  de  apanhar  o  trem  das  oito,  se  andasse  depressa.  A  princípioescorregou  algumas  vezes  pela  superfície  envernizada  da  cômoda,  mas,  aospoucos, com uma última elevação, pôs-se de pé; embora o atormentassem, deixoude ligar importância às dores na parte inferior do corpo. Depois deixou-se cair contraas costas de uma cadeira próxima e agarrou-se às suas bordas com as pequenaspernas. Isto devolveu-lhe o controlo sobre si mesmo e parou de falar, porque agorapodia prestar atenção ao que o chefe de escritório estava a dizer.
       - Perceberam uma única palavra? - perguntava o chefe de escritório. -Com certeza não está a tentar fazer de nós parvos?       -  Oh,  meu  Deus  -  exclamou  a  mãe,  lavada  em  lágrimas  -,   talvez  eleesteja terrivelmente doente e estejamos a atormentá-lo. Grete! Grete! - chamou aseguir.       - Sim, mãe? - respondeu a irmã do outro lado. Chamavam uma pela outraatravés do quarto de Gregório.       - Tens de ir imediatamente chamar o médico. o Gregório está doente. Vaichamar o médico, depressa. Ouviste como ele estava a falar?       -  Aquilo  não  era  voz  humana  -  disse  o  chefe  de  escritório,  numa  vozperceptivelmente baixa ao lado da estridência da mãe.       - Ana! Ana! - chamava o pai, através da parede para a cozinha, batendo aspalmas, chama imediatamente um serralheiro!
       E as meninas corriam pelo corredor, com um silvo de saias - como podia airmã ter-se vestido tão depressa?-, e abriam a porta da rua de par em par. Não seouviu  o  som  da  porta  a  ser  fechada  a  seguir;  tinham-na  deixado,  evidentemente,aberta, como se faz em casas onde aconteceu uma grande desgraça.       Mas Gregório estava agora muito mais calmo. As palavras que pronunciava jánão eram inteligíveis, aparentemente, embora a ele lhe parecessem distintas, maisdistintas mesmo que antes, talvez porque o ouvido se tivesse acostumado ao somdelas. Fosse como fosse, as pessoas julgavam agora que ele estava mal e estavamprontas a ajudá-lo. A positiva certeza com que estas primeiras medidas tinham sido tomadas  confortou-o.  Sentia-se  uma  vez  mais  impelido  para  o  círculo  humano  econfiava  em  grandes  e  notáveis  resultados,  quer  do  médico,  quer  do  serralheiro,sem, na verdade, conseguir fazer uma distinção clara entre eles. No intuito de tornara voz tão clara quanto possível para a conversa que estava agora iminente, tossiuum pouco, o mais silenciosamente que pôde, claro, uma vez que também o ruídopodia não soar como o da tosse humana, tanto quanto podia imaginar. Entrementes,na  sala  contígua  havia  completo  silêncio.  Talvez  os  pais  estivessem  sentados  àmesa  com  o  chefe  de  escritório,  a  segredar,  ou  talvez  se  encontrassem  todosencostados à porta, à escuta.       Lentamente, Gregório empurrou a cadeira em direção à porta, após o que alargou,  agarrou-se  à  porta  para  se  amparar  as  plantas  das  extremidades  daspequenas pernas eram levemente pegajosas- e descansou, apoiado contra ela porum momento, depois destes esforços. A seguir empenhou-se em rodar a chave nafechadura,  utilizando  a  boca.  Infelizmente,  parecia  que  não  possuía  quaisquerdentes - com que havia de segurar a chave?-, mas, por outro lado, as mandíbulaseram  indubitavelmente  fortes;  com  a  sua  ajuda,  conseguiu  pôr  a  chave  emmovimento,  sem  prestar  atenção  ao  fato  de  estar  certamente  a  danificá-las  emqualquer  zona,  visto  que  lhe  saía  da  boca  um  fluído  castanho,  que  escorria  pelachave e pingava para o chão.
       - Ouçam só - disse o chefe de escritório na sala contígua - esta dandovolta na chave .
       Isto  foi  um  grande  encorajamento  para  Gregório;  mas  todos  deviam  tê-loanimado  com  gritos  de  encorajamento,  o  pai  e  a  mãe  também:  Não,  Gregório,deviam todos ter gritado, - Continua, agarra-te bem a essa chave! E, na crença deque estavam todos a seguir atentamente os seus esforços, cerrou imprudentementeas  mandíbulas  na  chave  com  todas  as  forças  de  que  dispunha.  À  medida  que  arotação da chave progredia, ele torneava a fechadura, segurando-se agora só com aboca, empurrando a chave, ou puxando-a para baixo com todo o peso do corpo,consoante era necessário. o estalido mais sonoro da fechadura, finalmente a ceder,apressou literalmente Gregório. Com um fundo suspiro de alívio, disse, de si para si:Afinal,  não  precisei  do  serralheiro,  e  encostou  a  cabeça  ao  puxador,  para  abrircompletamente a porta.       Como tinha de puxar a porta para si, manteve-se oculto, mesmo quando aporta ficou escancarada. Teve de deslizar lentamente para contornar a portada maispróxima da porta dupla, manobra que lhe exigiu grande cuidado, não fosse cair emcheio de costas, mesmo ali no limiar. Estava ainda empenhado nesta operação, semter tempo para observar qualquer outra coisa, quando ouviu o chefe de escritóriosoltar um agudo Oh!, que mais parecia um rugido do vento; foi então que o viu, depé junto da porta, com uma mão a tremer tapando a boca aberta e recuando, comose impelido por qualquer súbita força invisível. A mãe, que apesar da presença dochefe  de  escritório  tinha  o  cabelo  ainda  em  desalinho,  espetado  em  todas  asdireções, começou por retorcer as mãos e olhar para o pai, após o que deu doispassos em direção a Gregório e tombou no chão, num torvelinho de saias, o rostoescondido  no  peito.  O  pai  cerrou  os  punhos  com  um  ar  cruel,  como  se  quisesseobrigar Gregório a voltar para o quarto com um murro; depois, olhou perplexo emtomo da sala de estar, cobriu os olhos com as mãos e desatou a chorar, o peitovigoroso sacudido por soluços.

       Gregório  não  entrou  na  sala,  mantendo-se  encostado  à  parte  interior  daportada fechada, deixando apenas metade do corpo à vista, a cabeça a tombar paraum e outro lado, por forma a ver os demais. Entretanto, a manhã tornara-se maislímpida.  Do  outro  lado  da  rua,  divisava-se  nitidamente  uma  parte  do  edifíciocinzento-escuro,  interminavelmente  comprido,  que  era  o  hospital,  abruptamenteinterrompido por uma fila de janelas iguais. Chovia ainda, mas eram apenas grandespingos bem visíveis que caíam literalmente um a um. Sobre a mesa espalhava-se alouça do breve almoço, visto que esta era para o pai de Gregório a refeição maisimportante, que prolongava durante horas percorrendo diversos jornais. Mesmo emfrente  de  Gregório,  havia  uma  fotografia  pendurada  na  parede  que  o  mostravafardado de tenente, no tempo em que fizera o serviço militar, a mão na espada e umsorriso despreocupado na face, que impunha respeito pelo uniforme e pelo seu portemilitar. A porta que dava para o vestíbulo estava aberta, vendo-se também aberta aporta de entrada, para além da qual se avistava o terraço de entrada e os primeirosdegraus da escada.
       -  Bem  -  disse  Gregório,  perfeitamente  consciente  de  ser  o  único  quemantinha  uma  certa  compostura  -,  vou  me  vestir,  embalar  as  amostras  e  sair.Desde que o senhor me dê licença que saia. Como vê, não sou obstinado e tenhovontade de trabalhar. A profissão de caixeiro- viajante é dura, mas não posso viversem ela. Para onde vai o senhor? Para o escritório? Sim? Não se importa de contarlá   exatamente   o   que   aconteceu?   Uma   pessoa   pode   estar   temporariamenteincapacitada, mas essa é a altura indicada para recordar os seus serviços anteriorese  ter  em  mente  que  mais  tarde,  vencida  a  incapacidade,  a  pessoa  certamentetrabalhará com mais diligência e concentração. Tenho uma dívida de lealdade paracom o patrão, como o senhor bem sabe. Além disso, tenho de olhar pelos meus paise pela minha irmã. Estou a passar por uma situação difícil, mas acabarei vencendo.Não me torne as coisas mais complicadas do que elas já são. Eu bem sei que oscaixeiros-viajantes não são muito bem vistos no escritório. As pessoas pensam queeles  levam  uma  vida  estupenda  e  ganham  rios  de  dinheiro.  Trata-se  de  umpreconceito que nenhuma razão especial leva a reconsiderar. Mas o senhor vê ascoisas profissionais de uma maneira mais compreensiva do que o resto do pessoal,isso  vê,  aqui  para  nós,  deixe  que  lhe  diga,  mais  compreensiva  do  que  o  própriopatrão, que, sendo o proprietário, facilmente se deixa influenciar contra qualquer dosempregados. E o senhor bem sabe que o caixeiro-viajante, que durante todo o anoraramente  está  no  escritório,  é  muitas  vezes  vítima  de  injustiças,  do  azar  e  dequeixas  injustificadas,  das  quais  normalmente  nada  sabe,  a  não  ser  quandoregressa, exausto das suas deslocações, e só nessa altura sofre pessoalmente assuas   funestas   conseqüências;   para   elas,   não   consegue   descobrir   as   causasoriginais. Peço-lhe, por favor, que não se vá embora sem uma palavra sequer quemostre que me dá razão, pelo menos em parte!
       Logo  às  primeiras  palavras  de  Gregório,  o  chefe  de  escritório  recuara  elimitava-se a fitá-lo embasbacado, retorcendo os lábios, por cima do ombro crispado.Enquanto Gregório falava, não estivera um momento quieto, procurando, sem tiraros olhos de Gregório, esgueirar-se para a porta, centímetro a centímetro, como seobedecesse  a  qualquer  ordem  secreta  para  abandonar  a  sala.  Estava  junto  aovestíbulo, e a maneira súbita como deu um último passo para sair da sala de estarlevaria  a  crer  que  tinha  posto  o  pé  em  cima  duma  brasa.  Chegado  ao  vestíbulo, estendeu o braço direito para as escadas, como se qualquer poder sobrenatural ali oaguardasse para libertá-lo.       Gregório apercebeu-se de que, se quisesse que a sua posição na firma nãocorresse sérios risco não podia de modo algum permitir que o chefe de escritóriosaísse   naquele   estado   de   espírito.   Os   pais   não   ligavam   tão   bem   desteacontecimento; tinham-se convencido, ao longo dos anos, de que Gregório estavainstalado na firma para toda a vida e, além disso, estavam tão consternados com assuas  preocupações  imediatas  que  nem  lhes  corria  pensar  no  futuro.  Gregório,porém, pensava. Era preciso deter, acalmar, persuadir e, por fim, conquistar o chefede escritório. Quer o seu futuro, quer o da família, dependiam disso! Se, ao menos, airmã ali estivesse! Era inteligente; começara a chorar quando Gregório estava aindadeitado de costas na cama. E por certo o chefe de escritório, parcial como era emrelação às mulheres, acabaria se deixando levar por ela. Ela teria fechado a porta deentrada e, no vestíbulo, dissiparia o horror. Mas ela não estava e Gregório teria deenfrentar sozinho a situação. E, sem refletir que não sabia ainda de que capacidadede   movimentos   dispunha,   sem   se   lembrar   sequer   de   que   havia   todas   aspossibilidades, e até todas as probabilidades, de as suas palavras serem mais umavez ininteligíveis, afastou-se do umbral da porta, deslizou pela abertura e começou aencaminhar-se para o chefe de escritório, que estava agarrado com ambas as mãosao  corrimão  da  escada  para  o  terraço;  subitamente,  ao  procurar  apoio,  Gregóriotombou, com um grito débil, por sobre as inúmeras pernas. Mas, chegado a essaposição, experimentou pela primeira vez nessa manhã uma sensação de confortofísico.  Tinha  as  pernas  em  terra  firme;  obedeciam-lhe  completamente,  conformeobservou com alegria, e esforçavam-se até por impeli-lo em qualquer direção quepretendesse. Sentia-se tentado a pensar que estava ao seu alcance um alívio finalpara  todo  o  sofrimento.  No  preciso  momento  em  que  se  encontrou  no  chão,balançando-se  com  sofrida  ânsia  para  mover-se,  não  longe  da  mãe,  na  realidademesmo defronte dela, esta, que parecia até aí completamente aniquilada, pôs-se depé  de  um  salto,  de  braços  e  dedos  estendidos,  aos  gritos:  Socorro,  por  amor  deDeus, socorro! Baixou a cabeça, como se quisesse observar melhor Gregório, mas,pelo contrário, continuou a recuar disparadamente e, esquecendo-se de que tinhaatrás de, si a mesa ainda posta, sentou-se precipitadamente nela, como se tivesseperdido  momentaneamente  a  razão,  ao  esbarrar  contra  o  obstáculo  imprevisto.Parecia  igualmente  indiferente  ao  acontecimento  de  a  cafeteira  que  tinha  tertombado e estava derramando um fio sinuoso de café no tapete.
       - Mãe, mãe - murmurou Gregório, erguendo a vista para ela.
       Nessa  altura,  o  chefe  de  escritório  estava  já  completamente  tresloucado;Gregório, não resistiu ao ver o café a correr, cerrou as mandíbulas com um estalo.Isto fez com que a mãe gritasse outra vez, afastando-se precipitadamente da mesa eatirando-se para os braços do pai, que se apressou a acolhê-la. Mas agora Gregórionão tinha tempo a perder com os pais. O chefe de escritório nas escadas; com oqueixo apoiado no corrimão, dava uma última olhadela para trás de si. Gregório deuum salto, para ter melhor a certeza de ultrapassá-lo; o chefe de escritório devia ter-lhe   adivinhado   as   intenções,   pois,   de   um   salto,   venceu   vários   degraus   edesapareceu, sempre aos gritos, que ressoavam pelas escadas.       Infelizmente  a  fuga  do  chefe  de  escritório  pareceu  pôr  o  pai  de  Gregóriocompletamente fora de si, embora até então se tivesse mantido relativamente calmo.Assim,  em  lugar  de  correr  atrás  do  homem  ou  de,  pelo  menos,  não  interferir  na perseguição  de  Gregório,  agarrou  com  a  mão  direita  na  bengala  que  o  chefe  deescritório tinha deixado numa cadeira, juntamente com um chapéu e um sobretudo,e, com a esquerda, num jornal que estava em cima da mesa e, batendo com os pése brandindo a bengala e o jornal, tentou forçar Gregório a regressar ao quarto. Denada valeram os rogos de Gregório, que, aliás, nem sequer eram compreendidos;por  mais  que  baixasse  humildemente  a  cabeça,  o  pai  limitava-se  a  bater  maisfortemente  com  os  pés  no  chão.  Por  trás  do  pai,  a  mãe  tinha  escancarado  umajanela, apesar do frio, e debruçava-se a ela segurando a cabeça com as mãos. Umarajada de vento penetrou pelas escadas, agitando as cortinas da janela e agitandoos  jornais  que  estavam  sobre  a  mesa,  o  que  fez  que  se  espalhassem  algumaspáginas  pelo  chão.  Impiedosamente,  o  pai  de  Gregório  obrigava-o  a  recuar,assobiando e gritando como um selvagem. Mas Gregório estava pouco habituado aandar para trás, o que se revelou um processo lento. Se tivesse uma oportunidadede  virar  sobre  si  mesmo,  poderia  alcançar  imediatamente  o  quarto,  mas  receavaexasperar o pai com a lentidão de tal manobra e temia que a bengala que o paibrandia  na  mão  pudesse  desferir-lhe  uma  pancada  fatal  no  dorso  ou  na  cabeça.Finalmente, reconheceu que não lhe restava alternativa, pois verificou, aterrorizado,que, ao recuar, nem sequer conseguia controlar a direção em que se deslocava-se,assim, sempre observando ansiosamente o pai, de soslaio, começou a virar o maisrapidamente que pôde, o que, na realidade, era muito moroso. Talvez o pai tivesseregistrado  as  suas  boas  intenções,  visto  que  não  interferiu,  a  não  ser  para,  dequando em quando e à distância, lhe auxiliar a manobra com a ponta da bengala. Seao menos ele parasse com aquele insuportável assobio! Era uma coisa que estava apontos  de  fazê-lo  perder  a  cabeça.  Quase  havia  completado  a  rotação  quando  oassobio o desorientou de tal modo que tornou a virar ligeiramente na direção errada.Quando, finalmente, viu a porta em frente da cabeça, pareceu-lhe que o corpo erademasiadamente largo para poder passar pela abertura. É claro que o pai, no estadode espírito atual, estava bem longe de pensar em qualquer coisa que se parecessecom abrir a outra portada, para dar espaço à passagem de Gregório. Dominava-o aidéia fixa de fazer Gregório regressar para o quarto o mais depressa possível. Nãoagüentaria de modo algum que Gregório se entregasse aos preparativos de erguer ocorpo e talvez deslizar através da porta. Nesta altura, o pai estava porventura a fazermais barulho que nunca para obrigá-lo a avançar, como se não houvesse obstáculonenhum que o impedisse; fosse como fosse, o barulho que Gregório ouvia atrás desi  não  lhe  soava  aos  ouvidos  como  a  voz  de  pai  nenhum.  Não  sendo  caso  parabrincadeiras,  Gregório  lançou-se,  sem  se  preocupar  com  as  conseqüências,  pelaabertura da porta. Um dos lados do corpo ergueu-se e Gregório ficou entalado noumbral  da  porta  ferindo-se  no  flanco,  que  cobria  porta  branca  de  horrorosasmanchas. Não tardou em ficar completamente preso, de tal modo que, por si só, nãopoderia mover-se, com as pernas de um dos lados a agitarem-se tremulamente noar e as do outro penosamente esmagadas de encontro ao soalho. Foi então que opai lhe deu um violento empurrão, que constituiu literalmente um alívio, e Gregóriovoou até ao meio do quarto, sangrando abundantemente. Empurrada pela bengala,a porta fechou-se violentamente atrás de si e, por fim, fez-se o silêncio.