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O conto experimental corresponde ao triunfo da forma _ seus êxitos máximos, como já disse alguém, foram formais e o seu apogeu, em Goiás, foi na década de 70. Mas um bom contista não fica apenas na experimentação formal. Podemos traçar uma linha evolutiva que comece com os apólogos e contos à moda de Trancoso, sempre com uma lição de moral a tirar no fim, passando pelo conto de idéia com Voltaire, de flagrante com Tchecov, até desaguar, mais tarde, no experimental. Entretanto, a fase de intenso experimentalismo já passou entre nós. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde os ficcionistas iniciaram a fase de experimentação antes de nós, estes contos começaram a desaparecer a partir de 1930, com os tough writers (escritores duros), a quem interessa a ação em si, "a manifestação ativa do próprio homem".

O que não se pode desconhecer é que o livro de Miguel Jorge ilustra e representa bem um momento da história da literatura brasileira. E se esta espécie de conto não agrada a muitos de nossos leitores, isto não constitui um caso isolado. O crítico e ficcinista Julio Cortázar, um dos melhores representantes do conto fantástico, foi duro com os que exigiam facilidades literárias num estudo denominado "Alguns aspectos do conto", quando assim se expressa: "Contrariamente ao estreito critério de muitos que confundem literatura com pedagogia, literatura com ensinamento, literatura com doutrinação ideológica, um escritor revolucionário tem todo o direito de se dirigir a um leitor muito mais complexo, muito mais exigente em matéria espiritual do que imaginam os escritores e os críticos improvisados pelas circunstâncias e convencidos de que seu mundo pessoal é o único mundo existente, de que as preocupações do momento são as únicas preocupações válidas". E adverte mais: "Cuidado com a fácil demagogia de exigir uma literatura acessível a todo mundo. Muitos dos que a apóiam não têm outra razão para fazê-lo senão a da sua evidente incapacidade para compreender uma literatura de maior alcance". E lembrando Maikóvski, que recomendava escola ao povo quando o partido lhe pedia uma arte mais popular, o crítico-escritor arremata, em outra memorável passagem: "Não se faz favor algum ao povo se se lhe propõe uma literatura que ele possa assimilar sem esforço, passivamente, como quem vai ao cinema ver fitas de cowboys. O que é preciso fazer é educá-lo, e isso é, numa primeira etapa, tarefa pedagógica e não literária".

A tarefa de Miguel Jorge é literária. E desta ele se desincumbiu muito bem, representando o seu momento histórico-literário e dando à nossa ficção, ao lado de José Veiga e de outros seus contemporâneos, o alcance universal que faltava à literatura goiana.