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Libertinagem e Estrela da Manhã
Manuel  Bandeira
DADOS  SOBRE  O  AUTOR

Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho nasceu no Recife (Pernambuco) em 1886 e morreu no Rio de Janeiro em 1968. Passou sua
infância no Recife, tendo se mudado para o Rio de Janeiro com sua família quando adolescente. Veio para São Paulo cursar Escola Politécnica que abandonou em 1904, aos dezoito anos, por causa da tuberculose. Em 1912, estando na Suíça a tratamento, familiariza-se com a poesia simbolista e pós-simbolista em língua francesa. Esse contato influenciou muito sua produção poética, notadamente seus primeiros livros: Carnaval e Cinza das Horas. Voltando definitivamente para o Rio de Janeiro, trava amizade com escritores como Ronald de Carvalho, Graça Aranha e outros que, junto com ele, participam das mudanças literárias que culminaram com o Modernismo. Empregando o verso livre (sem métrica) e branco (sem rima), além da ironia, foi escolhido pelos participantes da Semana de Arte Moderna como o "São João Batista" do grupo. Não participou pessoalmente da Semana por discordar do tom destruidor do grupo, porém seu poema Os Sapos, nítida crítica aos parnasianos, foi apresentado na primeira noite do evento por Ronald de Carvalho, sob vaias.
Sua  vida  esteve  sempre  ligada  à  literatura,  quer  como  autor  de  poesias,  crônicas  literárias,  obras  didáticas  de  nível  superior  e traduções, quer como professor do colégio Pedro II e da Universidade do Brasil.

OBRAS PRINCIPAIS

1917 - Cinza das Horas
1919 - Carnaval
1924 - Poesias (incluindo Ritmo Dissoluto)
1930 - Libertinagem
1936 - Estrela da Manhã
1948 - Mafuá do Malungo
1952 - Opus 10
1958 - Estrela da Tarde
1966 - Estrela da Vida Inteira

CARACTERÍSTICAS DE SUAS OBRAS

Manuel Bandeira difere de seus parceiros da 1 a fase do Modernismo brasileiro em virtude de ter-se voltado para sua realidade
interior e tentar explicar-se.
Sua vida foi marcada pela tuberculose mal-curada e pela perda de seu pais e irmãos, entre 1918 e 1922, que lhe parece ter dado um desejo de desertar da vida. Sua obra confunde-se com sua existência, levando-nos a identificar o "eu-lírico" de seus poemas com o próprio poeta.
Libertinagem  é  composto  por  38  poemas,  sendo  dois  em  francês.  É  nesta  obra  que  Bandeira  configura-se  como  um  autor verdadeiramente modernista, quer nos temas, quer na forma.

Os temas são os mais variados, tais como:
-  A infância, as pessoas ligadas a ela e sua cidade natal, que servem de refúgio ao "eu-lírico" (poeta descontente e infeliz); esses elementos aparecem como lenitivo de sua dor no presente.

Poemas:  O Anjo da Guarda, Porquinho-da-Índia, Evocação do Recife, Profundamente, Irene no Céu, O Impossível Carinho, Poema de Finados.

-  Imagens brasileiras, que evocam lugares, tipos populares e a própria linguagem coloquial do Brasil, transformando o cotidiano em matéria poética.

Poemas: Mangue, Evocação do Recife, Lenda Brasileira, Cunhantã, Camelôs, Belém do Pará, Poema tirado de uma notícia de
jornal, Macumba de Pai Zusé e Pensão Familiar.

-   Anseio de liberdade vital, onde o "eu-lírico" (poeta melancólico, solitário e irônico) extravasa seus ideais libertários quer  de sentimentos e desejos vitais, quer estéticos.

Poemas:  Não sei dançar, Na boca, Vou-me embora pra Pasárgada, Poética, Comentário Musical e O Último Poema.

-   Visão desiludida e irônica da vida, mostrando uma melancolia profunda que gera, às vezes, uma visão surrealista  com  final inesperado ou um desejo de mudança.

Poemas: Não sei dançar, O Cacto, Pneumotórax, Comentário Musical, Chambre Vide, Banheur Lyrigue, Poema tirado de uma notícia de jornal, A Virgem Maria, O Major, Oração a Terezinha do Menino Jesus, Andorinha, Noturno da Parada Amorim, Noturno da Rua da Lapa, O Impossível Carinho, Poema de Finados e O Último Poema.

-   Amorosos, ora apresentando sentimentos puros e inocentes, ora apresentando imagens femininas eróticas.

Poemas: Mulheres, Porquinho-da-Índia, Tereza, Madrigal tão engraçadinho, Na Boca e Palinódia.

Em relação à forma, Bandeira não emprega nenhuma métrica padrão, variando da redondilha maior em Vou-me embora pra Pasárgada até versos de dezessete sílabas poéticas como em Namorados; dentro de um mesmo poema percebem-se inúmeras variações.

Há em alguns textos a preocupação com a disposição gráfica, como em Evocação do Recife. Tal preocupação não é revelada em
relação à rima, porém sua maior expressão está na força da palavra. Esta é coloquial, cotidiana, mas empregada com brilhantismo, não desprezando  seu  aspecto  sonoro,  o  que  acaba  por  fornecer  ao  poema  um  ritmo  pessoal  e  harmonioso  que,  somado  à  emoção, assemelha-se a uma canção.

 
ANTOLOGIA COMENTADA

Os  textos  que  se  seguem  foram  retirados  da  obra  Libertinagem  &  Estrela  da  Manhã  de  Manuel  Bandeira,  da  Editora  Nova Fronteira.

                                        Não sei Dançar

                                   Uns tomam éter, outros cocaína.
                                   Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
                                   Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
                                   Mas o cáculo das probabilidades é uma pilhéria...
                                   Abaixo Amiel!
                                   E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff.

                                   Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
                                   Perdi a saúde também.
                                   É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band.

                                   Uns tomam éter, outros cocaína.
                                   Eu tomo alegria!
                                   Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.

                                   Mistura muito excelente de chás...

                                   Esta foi açafata...

                                   - Não foi arrumadeira.
                                   E está dançando como o ex-prefeito municipal:
                                   Tão Brasil!

                                   De fato este salão de sangues misturados parece o Brasil...
                                   Há até a fração incipiente amarela
                                   Na figura de um japonês.
                                   O japonês também dança maxixe:
                                   Acugêlê  banzai!

                                   A filha do usineiro de Campos
                                   Olha  com  repugnância
                                   Para a crioula imoral.

                                   No entanto o que faz a indecência da outra
                                   É dengue nos olhos maravilhosos da moça.
                                   E aquele cair de ombros...
                                   Mas ela não sabe...
                                   Tão Brasil!

                                   Ninguém se lembra de política...
                                   Nem dos oito mil quilômetros de costa...
                                   O algodão do Seridó é o melhor do mundo?...Que me importa?
                                   Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilóstomos.
                                   A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca.
                                   Eu tomo alegria!
                                                                                            Petrópolis,  1925



O poema acima inicia a obra Libertinagem e já nos dá idéia de qual será o tom da obra.

À primeira vista, percebe-se um poema em versos brancos e livres, em que a estrofação é irregular, notando-se a preocupação gráfica do  poeta.
O "eu-lírico", impossibilitado de dançar ("Não sei dançar"), observa o baile carnavalesco tão brasileiro, onde tipos humanos dos mais diversos, como o japonês que mistura idiomas ("acugelê banzai"), a arrumadeira, o ex-prefeito, a filha do usineiro e a crioula imoral mesclam-se num mesmo ambiente, esquecendo-se da situação de seu país.
Assim como alguns empregam drogas para se livrarem da melancolia, o poeta "bebe" a terça-feira gorda que lhe entra pelos olhos.
Seu tom é melancólico e irônico, chegando a Amiel, poeta suíço dono de espírito inquieto e ativo que constantemente era paralisado pela sua timidez mórbida, além de Maria, prosadora russa, em cuja obra citada no poema percebe-se a luta e o desespero de seu espírito inquieto e melancólico, tal como o do poeta.

                                          Pneumotórax

                      Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
                      A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
                      Tosse, tosse, tosse.

                      Mandou chamar o médico:

                      - Diga trinta e três.
                      - Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
                      - Respire.

                         ....................................................................................................................................................

                      - O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
                      - Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
                      - Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Nesse poema, através de formas nitidamente modernistas - versos brancos livres - Bandeira mescla diálogo com frases afirmativas e recursos gráficos, empregando toda sua auto-ironia melancólica.
Nele, o "eu-lírico" desabafa no 2  o verso todo o seu drama interior. "A vida inteira que podia ter sido e que não foi". Isto é, aos desejos frustados, aos sonhos não realizados do poeta só resta tocar uma canção trágica em homenagem.

                                           Irene  Preta

                                      Irene preta
                                      Irene boa
                                      Irene sempre de bom humor.
                                      Imagino Irene entrando no céu:
                                      - Licença, meu branco!
                                      E São Pedro bonachão:
                                      - Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Irene preta é uma das figuras mais famosas e queridas da infância do poeta. Aqui, seu "eu-lírico" presta-lhe uma homenagem muito especial.  Atente para a linguagem coloquial com frases nominais.
 
                                             Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com   livro de ponto expediente protocolo e manifestações
                                                            [ de apreço ao Sr.diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo
                                                            [ de um vocábulo

Abaixo  aos  puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inúmeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo o lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem
                                                  [ modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres,etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados

O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Poética é a síntese da concepção de um poema moderno do autor, sendo, portanto, metalingüístico.

Para o "eu-lírico", um poema não deve seguir regras externas ao "eu" interior do poeta. Ele é contra todas as normas sintáticas, semânticas ou poéticas, numa oposição clara aos poetas parnasianos.

Prefere  o  lirismo,  isto  é,  expressão  dos  sentimentos  do  "eu-lírico"  livres  e  espontânea  como  a  dos  bêbados  e  dos  clows  de Shakespeare.

                                         Belém  do  Pará

                                   Bembelelém
                                   VivaBelém!

                                   Belém do Pará porto moderno integrado na equatorial
                                   Beleza eterna da paisagem

                                   Bembelelém
                                   VivaBelém!

                                   Cidade  pomar
                                   (Obrigou a polícia a classificar um tipo novo de delinquente:
                                   O apedrejador de mangueiras.)


 
Bembelelém
VivaBelém!

Belém do Pará onde as avenidas se chamam Estradas:
Estrada de São Jerônimo
Estrada de Nazaré

Onde a banal Avenida Marechal Deodoro da Fonseca de todas as cidades do Brasil
Se chama liricamente
Brasileiramente
Estrada do Generalíssimo Deodoro

Bembelelém
VivaBelém!
Nortista  gostosa
Eu te quero bem.

Terra  da  castanha
Terra da borracha
Terra de biribá bacuri sapoti
Terra de fala cheia de nome indígena
Que a gente não sabe se é de fruta pé de pau ou ave de plumagem   bonita.

Nortista  gostosa
Eu te quero bem.

Me obrigáras a novas saudades
Nunca mais me esquecerei do teu Largo da Sé
Com a fé maciça das duas maravilhosas igrejas barrocas
E  o  renque  ajoelhado  de  sobradinhos  coloniais  tão  bonitinhos

Nunca mais me esquecerei
Das velas encarnadas
Verdes
Azuis
Da doca de Ver-o-Peso
Nunca mais

E foi pra me consolar mais tarde
Que  inventei  esta  cantiga:

Bembelelém
VivaBelém!
Nortista  gostosa
Eu te quero bem.
                                                 Belém, 1928
O "eu-lírico" propõe-se a inventar uma canção como forma de consolo para suas saudades futuras, quando se ausentar da cidade.

No poema o "eu-lírico" refere-se ao porto, à paisagem, às ruas, ao idioma, às riquezas naturais e arquitetônicas, demonstrando sua admiração e afeto por Belém do Pará.


O autor realmente faz uma canção de amor a Belém, pois nos versos "Bembelelém/ VivaBelém" a preocupação com a sonoridade é
nítida, assim como a influência de cantigas infantis (Bambalalão/ Senhor Capitão). Além disso, o emprego da redondilha menor em
"Nortista gostosa/ Eu te quero bem" não é ocasional, visto ser a medida empregada nas cantigas medievais, ligadas à música.

                                       Evocação  do  Recife

                      Recife
                      Não a Veneza americana
                      Não a Mauritssatd dos armadores das Índias Ocidentais
                      Não o Recife dos Mascates
                      Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois-
                      Recife das Revoluções libertárias
                      Mas o Recife sem história nem literatura
                      Recife sem mais nada
                      Recife da minha infância
                      A Rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de
                                                                               [ Dona Aninha Viegas
                      Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz
                      Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras, mexericos, namoros
                                                                               [ risadas

                      A gente brincava no meio da rua
                      Os meninos gritavam:

                      Coelho  sai!
                      Não sai!

                      A distância as vozes macias das meninas politonavam:

                      Roseira dá-me uma rosa
                      Craveiro dá-me o botão
                      (Dessas rosas muito rosa
                      Terá morrido em botão...)

                      De repente
                                                            nos  longes  da  noite
                                                                                  um sino

                      Uma pessoa grande dizia:
                      Fogo em Santo Antônio!
                      Outra contrariava: São José!
                      Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
                      Os homens punham o chapéu saíam fumando
                      E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver fogo

                      Rua da União...
                      Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
                      Rua do Sol
                      (Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)
                      Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
                       ...onde se ia fumar escondido
                      Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
                       ...onde se ia pescar escondido

   Capiberibe
-  Capibaribe
Lá  longe  o  sertãozinho  de  Caxangá
Banheiros  de  palha

Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei  parado  o  coração  batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento

Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redomoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemidos em jangadas de
                                                            [bananeiras

Novenas
Cavalhadas

Eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar a mão nos meus cabelos

  Capiberibe
-  Capibaribe

Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas com a xale vistoso de
                                                               [ pano da Costa

E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido

Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua  certa  do  povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A  sintaxe  lusíada
A vida como uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam

Recife...
Rua da União...
A casa do meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo  lá  parecia  impregnado  de  eternidade

Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô.
                                                                          Rio, 1925.


Evocar significa chamar de algum lugar, fazer aparecer chamando de certo modo. O "eu-lírico" evoca no presente a Recife de sua infância, através das lembranças, das brincadeiras e canções infantis, dos hábitos de seu povo, de seus tipos humanos com suas falas, das suas ruas e rios. Essa evocação tem um tom melancólico e triste dado pelos últimos versos, em que se percebe que essa Recife de sua infância, que ele pensava que fosse eterna, está tão morta quanto o seu avô e só é revivida na sua memória, daí seu poema ser uma evocação.
Em Poética o "eu-lírico" expõe suas idéias sobre como deveria ser um poema modernista, já em Evocação do Recife ele faz uma obra prima modernista de acordo com os objetivos propostos.
O "eu-lírico" descreve não a Recife histórica, libertária, mas a sua amada Recife de infância que lhe evoca um passado feliz, que, no presente, serviria no lenitivo para as dores do poeta Bandeira. É, portanto, um poema altamente lírico, isto é, carregado de sentimentos puros e espontâneos como os dos bêbados (Poética) e não tirados dos manuais de cartas, mas da observação de fatos cotidianos brasileiros, das brincadeiras, das enchentes e dos pregões dos ambulantes.

A linguagem é simples, coloquial, pois, segundo o texto, o povo fala gostoso o português do Brasil, que é o empregado no poema. Não há preocupação com rima ou métrica, apenas com a disposição gráfica dos versos e a expressão de um lirismo profundo, de modo a impregnar o presente de sua Recife tão brasileira e inesquecível.

                                            Mangue

                      Mangue mais Veneza americana do que o Recife
                      Cargueiros atracados nas docas do Canal Grande
                      O Morro do Pinto morre de espanto
                      Passam estivadores de torso nu suando facas de ponta
                      Café  baixo
                      Trapiches  alfandegados
                      Catraias  de  abacaxis  e  de  bananas
                      A Light fazendo crusvaldina com resíduos de coque
                      Há macumbas no piche
                      Eh cagira mia pai
                      Eh  cagira
                      E o luar é uma coisa só

                      Houve tempo em que a Cidade Nova era mais subúrbio do que todas as Meritis da
                                                                                     [  Baixada
                      Pátria  amada  idolatra  de  empregadinhos  de  repartições  públicas

                      Gente que vive porque é teimosa

                      Cartomantes da Rua Carmo Neto
                      Cirurgiões-dentistas com raízes gregas nas tabuletas avulsivas
                      O Senador Eusébio e o Visconde de Itaúna já se olhavam com rancor

                      (Por isso
                      Entre os dois
                      Dom João VI plantou quatro renques de palmeiras imperiais)

                      Casinhas tão térreas onde tantas vezes meu Deus fui funcionário público casado
                                               [ com mulher feia e morri de tuberculose pulmonar

                      Muitas palmeiras se suicidaram porque não viviam num píncaro azulado.
                      Era aqui que choramingavam os primeiros choros dos carnavais cariocas


                       Sambas  da  tia  Ciata
                       Cadê mais tia Ciata
                       Talvez em Dona Clara meu branco
                       Ensaiando  cheganças  pra  o  Natal
                       O menino Jesus - Quem sois tu?
                       O preto - Eu sou aquele preto principá do centro do cafange do fundo do rebolo.
                                                               [ Quem sois tu?
                       O Menino Jesus - Eu sou o fio da Virge Maria.
                       O preto - Entonces como é fio dessa senhora, obedeço.
                       O menino Jesus - Entonces cuma você obedece, reze aqui um terceto pr'esse
                                                               [exerço vê

                       O Mangue era simplesinho

                       Mas as inundações dos solstícios de verão
                       Trouxeram para Mata-Porcos todas as uiaras da Serra da Carioca

                       Uiaras do Trapicheiro
                       Do  Maracanã
                       Do Rio Joan
                       E vieram também sereias de além-mar-jogadas pela ressaca nos aterrados da Gamboa
                       Hoje há transatlânticos atracados nas docas do Canal Grande
                       O Senador e o Visconde arranjaram capangas
                       Hoje se fala numa porção de ruas em que dantes ninguém acreditava

                       E há partidas para o Mangue
                       Com choros de cavaquinho, pandeiro e reco-reco
                       És mulher
                       És mulher e nada mais
                       Oferta
                       Mangue mais Veneza americana do que o Recife
                       Meriti meretriz
                       Mangue  enfim  verdadeiramente  Cidade  Nova
                       Com  transatlânticos  atracados  nas  docas  do  Canal  Grande
                       Linda como Juiz de Fora.

Esse poema homenageia o Mangue, no Rio de Janeiro, descrevendo sua paisagem e seus tipos humanos, tal como em Evocação do
Recife  e  Belém do Pará.

Diferencia-se dos demais na medida em que reproduz diálogos, grafando as palavras de acordo com a pronúncia popular e mesclando-se com os versos de maneira inesperada.

                               Poema tirado de uma notícia de jornal

                       João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão
                                                                                             [sem número.

                       Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
                       Bebeu
                       Cantou
                       Dançou
                       Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

João Gostoso, o personagem anônimo do barracão sem número, bebe,dança, canta e suicida-se na lagoa que embeleza a paisagem.

Assim como Macabéa, de Clarice Lispector, João Gostoso é o herói anônimo que sucumbe à voracidade da cidade grande.
Para o autor, não são necessárias muitas palavras, metros ou rimas para compor uma tragédia; os fatos bastam por si só.

É um poema modernista em sua primeira fase: análise crítica da realidade brasileira expressa através de uma linguagem coloquial, sucinta, em que se restringe os fatos, como em uma notícia de jornal.

                                         Profundamente

                                        Quando ontem adormeci
                                        Na noite de São João
                                        Havia alegria e rumor
                                        Estrondos de bombas luzes de Bengala
                                        Vozes cantigas e risos
                                        Ao pé das fogueiras acesas.

                                        No meio da noite despertei
                                        Não ouvi mais vozes nem risos
                                        Apenas  balões
                                        Passavam errantes
                                        Silenciosamente
                                        Apenas de vez em quando
                                        O ruído de um bonde
                                        Cortava  o  silêncio
                                        Como um túnel.
                                        Onde estavam os que há pouco
                                        Dançavam
                                        Cantavam
                                        E riam
                                        Ao pé das fogueiras acesas?

                                        - Estavam todos dormindo
                                        Estavam  todos  deitados
                                        Dormindo
                                        Profundamente

                                        Quando eu tinha seis anos
                                        Não pude ver o fim da festa de São João
                                        Porque  adormeci

                                        Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
                                         Minha avó
                                        Meu avô
                                        Totônio  Rodrigues
                                        Tomásia
                                        Rosa
                                        Onde estão todos eles?

                                        -Estão  todos  dormindo
                                        Estão  todos  deitados
                                        Dormindo
                                        Profundamente.


Neste poema, o "eu-lírico" relembra das festas juninas de sua infância, que lhe trazem lembranças alegres, mas que terminaram, pois o tempo passou e as pessoas queridas já se foram.

Note no texto a alternância entre a infância e o presente, além da menção da pessoas ligadas à sua infância, tão mencionadas pelo poeta.

É importante salientar a preocupação do poeta na escolha da palavra "profundamente", que valoriza o poema pela sua sonoridade
no refrão, pois há repetição de sons nasais (assonância) e, sozinha, constitui-se numa redondilha.

                                  Vou me embora pra Pasárgada

                                         Vou-me embora pra Pasárgada
                                         Lá sou amigo do rei
                                         Lá tenho a mulher que eu quero
                                         Na cama que escolherei
                                         Vou-me embora pra Pasárgada

                                         Vou-me embora pra Pasárgada
                                         Aqui eu não sou feliz
                                         Lá a existência é uma aventura
                                         De  tal  modo  inconseqüente
                                         Que Joana a Louca de Espanha
                                         Rainha e falsa demente
                                         Vem a ser contraparente
                                         Da nora que nunca tive

                                         E como farei ginástica
                                         Andarei  de  bicicleta
                                         Montarei em burro brabo
                                         Subirei  no  pau-de-sebo
                                         Tomarei banhos de mar!
                                         E  quando  estiver  cansado
                                         Deito na beira do rio
                                         Mando chamar a mãe-d'água
                                         Pra me contar as histórias
                                         Que no tempo de eu menino
                                         Rosa vinha me contar
                                         Vou-me embora pra Pasárgada

                                         Em Pasárgada tem tudo
                                         É  outra  civilização

                                         Tem um processo seguro
                                         De impedir a concepção
                                         Tem telefone automático
                                         Tem  alcalóide  à  vontade
                                         Tem  prostitutas  bonitas
                                         Para a gente namorar

                                         E quando eu estiver mais triste
                                         Mas triste de não ter jeito
                                         Quando de noite me der
                                         Vontade de me matar
                                         - Lá sou amigo do rei -
                                         Terei a mulher que eu quero
                                         Na cama que escolherei
                                         Vou-me embora pra Pasárgada.

O "eu-lírico" demonstra seu desejo de buscar um lugar imaginário e ideal para viver como forma de fuga do plano real, que só lhe causa tristeza, infelicidade e vontade de se matar.
Em Pasárgada o "eu-lírico" poderá satisfazer todos os desejos físicos e afetivos ("mulher que eu quero", "prostitutas bonitas"), e de  aventuras  ("fazer  ginástica",  "andar  de  bicicleta",  "nadar  no  mar"  etc),  que  lhe  serão  facilitados,  pois  "sou  amigo  do  rei".
Pasárgada é um lugar moderno (tem alcalóide, telefone e método seguro de anticoncepção), onde o absurdo não existe ("vem a ser contraparente/ Da nora que nunca tive"; mãe-d'água conta-lhe histórias) e a Rosa de sua infância está presente.

O poema é construído em redondilha maior, que, junto com a linguagem oral, dá ao texto o ritmo agradável das canções populares, intenção clara do autor; que não fere o Modernismo em virtude dessa intencionalidade.
           
O  Último  Poema

Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse eterno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
O último poema de Libertinagem expressa os desejos do "eu-lírico" para um último poema (função metalingüística). Ele deveria
conter ternura, ardor, beleza e pureza simples, além da paixão dos suicidas que não explicam seus motivos.
CARACTERÍSTICAS  DE  ESTRELA  DA  MANHÃ

Estrela da Manhã é composto de 28 poemas, 9 em versos livres, 16 metrificados e 3 poemas em prosa, sendo um deles em francês.
Essa obra marca o ínicio da última fase do poeta, chamada por alguns críticos de pós-modernista. É a fase mais madura de sua obra.
Nela, o autor combina o que de melhor havia na tradição (soneto italiano, soneto inglês, rondó, vilancete, sextilha, cantiga etc.) com as conquistas modernas empregadas anteriormente.
Já que o estilo simples, lírico, emotivo e humilde permanece, sendo porém mais fortes o erotismo, os versos surrealistas, a melancolia e a desilusão de viver.
 
                                        Estrela  da  Manhã

                      Eu quero a estrela da manhã
                      Onde está a estrela da manhã?
                      Meus amigos meus inimigos
                      Procurem a estrela da manhã

                      Ela  desapareceu  ia  nua
                      Desapareceu com quem?
                      Procurem por toda parte

                      Digam que sou um homem sem orgulho
                      Um homem que aceita tudo
                      Que me importa?
                      Eu quero a estrela da manhã

                      Três dias e três noites
                      Fui assassino e suicida
                      Ladrão, pulha, falsário

                      Virgem mal-sexuada
                      Atribuladora  dos  aflitos
                      Girafa de duas cabeças
                      Pecai por todos pecai com todos

                      Pecai com os malandros
                      Pecai com os sargentos
                      Pecai com os fuzileiros navais
                      Pecai de todas as maneiras

                      Com os gregos e com os troianos
                      Com o padre e com o sacristão
                      Com o leproso de Pouso Alto

                      Depois comigo

                      Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e direi coisas de uma
                                                                           [ternura tão simples

                      Que tu desfalecerás

                      Procurem por toda a parte
                      Pura ou degradada até a última baixeza
                      Eu quero a estrela da manhã.

O poema acima introduz e dá nome ao livro. Permanece o emprego de versos livres e brancos.

O "eu-lírico" anseia pela estrela da manhã perdida e roga por ela com insistência, num tom de ladainha, chegando a pedir ajuda. Não se importa caso ela venha degradada ou pura, ou se tenha se perdido em outras mãos, ele a esperará com festas ("mafuás, novenas, cavalhadas"); fará sacrifícios ("comerei terra") e será poeta ("direi coisas de uma ternura tão simples").

Em relação à forma não há preocupação rimática, métrica e nem com a estrofação. Observe que a estrela é tratada por ela, tu e vós. Há o emprego de anáfora (6  a e 7  a estrofes) e imagens surrealistas (5  a estrofe), que parecem brotar do inconsciente do "eu-lírico".


Trem  de  Ferro
Café com pão

Café com pão

Café com pão
Virgem Maria que foi isto maquinista?
Agora sim

Café com pão

Agora sim

Voa, fumaça

Corre, cerca

Ai seu fogista

Bota fogo

Na  fornalha

Que eu preciso

Muita força

Muita força

Muita força
Oô...
Quando me prendero
No  canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...
Menina  bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Para matá minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não  gosto  daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...
Oô...

Foge,  bicho

Foge,  povo

Passa  ponte

Passa poste

Passa  pasto

Passa boi

Passa  boiada

Passa  galho

De ingazeira

Debruçada

No  riacho

Que  vontade

De cantar!
Vou  depressa
Vou  correndo
Vou  na  toda
Que só levo
Pouca  gente
Pouca  gente
Pouca gente...

O poema é uma imitação sonora de um trem em movimento.
Sua riqueza está centrada no ritmo e na sua musicalidade, a qual se baseia na métrica, na aliteração e na assonância, além
de incluir três canções em seu interior (Oô...Oô).

O ritmo do trem é marcado pelo número de sílabas poéticas do verso; quando é veloz há trissílabos; quando perde velocidade,
possui quatro ou cinco sílabas poéticas ("café com pão").
A linguagem coloquial e as imagens fugidias que passam pela janela do trem e que são percebidas por um "eu-lírico" infantil
ou ingênuo aumentam a riqueza do poema.


                                       Tragédia   Brasileira

Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade.

Conheceu Maria Elvira na Lapa-prostituta, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de
miséria.

Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto
ela  queria.

Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.

Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra,um tiro, uma facada. Não fez nada disso, mudou de casa. Viveram três anos
assim.

Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.

Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de
Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos...

Por  fim  na  Rua  da  Constituição,  onde  Misael,  privado  de  sentidos  e  de  inteligência,  matou-a  com  seis  tiros,  a  polícia  foi encontrá-la caída em decúbio dorsal, vestida de organdi azul.
No texto acima, Misael, 63 anos, homem correto, apaixona-se por uma prostituta mal cuidada. Tira-a dessa vida e cuida de sua saúde e aparência, instalando-a em sua casa. Assim que se pôs bonita e bem cuidada, ela arrumou um namorado. Misael, pouco afetivo a violências, resolveu mudar-se. A cada namorado novo, nova casa, durante três anos. No final, após 19 mudanças, Misael perdeu a cabeça e matou-a com seis tiros.

É um poema em prosa, em que o poeta, através de frases concisas, demonstra ser aquele que melhor soube ver a poesia, no caso,
trágica, presente no cotidiano. A liberdade formal que lhe é característica, leva-o a imitar, no final do poema, a linguagem jornalística, ressaltando dessa forma a ironia presente no texto ("matou-a com seis tiros").

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