Imprimir
Categoria: Letras, Arte e Paixão (II)
Acessos: 16842
Estrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativa
 

A primeira edição da obra lírica de Camões, titulada Rimas, foi publicada em 1595, cujos poemas têm autoria inquestionáveis, e na qual consta o poema D\'amor e seus danos objeto deste ensaio na busca por esclarecer os principais aspectos da dicotomia Camoniana. Entende-se que, a segunda edição de Rimas, publicada em 1598 é causadora de grande confusão, que segundo os estudiosos modernos contam, o livreiro Estevão Lopes[i], entusiasmado pelo grande sucesso que foi a primeira publicação, teria arbitrariamente incluído na segunda um grande número de poemas novos, de autoria discutível.

As edições que seguiram, como a de Domingos Fernandes em Segunda Parte das Rimas (1616), as de Álvares da Cunha (1668), Faria e Sousa (1685), até mesmo os compiladores do século XIX, seriam veementemente desacreditadas. Não sendo da pretensão deste ensaio estabelecer os traços de autenticidade destas obras, este se fundamentara unicamente sobre de fontes reconhecidamente competentes.       

 D’amor e seus danos é uma redondilha, tal como segue os moldes da poesia palaciana do Cancioneiro Geral[ii] de Garcia de Resende[iii], composta de estrofes de 6 versos feitos para trova (cantar), com versos de 5 silabas poéticas, como se vê abaixo o escalonamento da segunda estrofe:

 

Vi /te /rra /flo /ri /da
De /lin /dos /a /bro /lhos,
Lin /dos /pa /ra os / o/lhos,
du /ros /pa /ra a/ vi /da;
mas/ a /rês /per/di/da
que/ tal/ er/va/ pa/ce
em/ for/te/ ho/ra na/ce[iv].

 

A característica trova é usada aqui unicamente com sentido de canto, não podendo confundia trovadorismo com a lírica clássica camoniana, cuja Conferencia de 1964 defendia que tal lírica “evidenciava três filiações: a tradicional, proveniente da poesia trovadesca; a estilnovista e petrarquizante, como expoentes da imitação dos italianos; e aristocrática, que busca inspiração nos antigos”. Se o Cancioneiro de Garcia Resende influenciou Camões, este influenciou toda a poesia posterior, “cujos poemas têm servido de fonte de inspiração para inúmeras gerações de poetas. Seus sonetos amorosos tornaram-se célebres, influenciando inclusive autores contemporâneos” (TUFANO, 1993). É impossível afirmar qual a verdadeira origem da literatura de camoniana, tão própria e singular. Há quem atribua a Camões o mais vasto currículo, a Conferência 1964 defendia que sua obra seja resultado de três elementos: o amor, o exílio, e seu conflito entre a formação acadêmica e sua experiência:[...] O dualismo dos estilos camonianos tem sua primeira causa nas atitudes contraditórias do Poeta perante a vida, que ele sabe tão bem cristalizar em paradoxos sutis, registrados em toda a sua obra: uma atitude de ordem filosófica, informada nos neoplatônicos e em Aristóteles, por si só afirma ou define, sem interferência da dúvida, é absoluta; outra, de ordem empírica, é motivo para indagações e especulação, através das quais, o Poeta revela, diante dos acontecimentos, perplexidade e confusão, e traduz a impossibilidade de definir sem levar em conta as certezas que a experiência lhe fornece. Quanto aos temas, Camões os distribui segundo três motivos fundamentais que, algumas vezes, se confundem na expressão lírico-amorosa. São eles: o amor, o exílio e o conflito entre a formação acadêmica e sua experiência individual. (CUNHA, 1980, p. 07)


Linguagem ou pensar contemporâneo?Um aspecto que impressiona na linguagem usada por Camões, é que seu texto mantém se de fácil compreensão para os leitores da contemporaneidade, algo que não acontece com os trovadores medievais. Isto talvez se explique pelo fato de Camões ter tratado em seus poemas os sentimentos de forma clara, sem o linguajar ingênuo e censurado dos seus contemporâneos. A linguagem de Camões por vezes foi vista como excessiva e obscena, e era!Camões rompeu com a ingenuidade comum da poesia de sua época, fez poemas que assediava a mulher descrevendo em seus versos um amor que queimava como o fogo. Desabafando em versos, marcante a coincidentia oppositorum, a consciência do oposto. Um inventar de um amor impossível devido a diferenças hierárquicas.Alguns ensaístas, como Lênia Márcia Mongelli, crítica literária e professora titular do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP, vê na forma que Camões retrata o amor, uma antecipação do Barroco. “Tanto do meu estado me acho incerto”, e “Amor é um fogo que arde sem se ver”: ambos os sonetos, cujo cerrado jogo de paradoxos é efeito de mesma causa — o Amor, são considerados antecipadores do movimento Barroco (século XVII), que tem como uma de suas características mais marcantes a coincidentia oppositorum, o gosto pela aproximação de contrários (MONGELLI, 1998. p.191)A conferência realizada na Casa de Portugal, por ocasião das comemorações camonianas de junho de 1964, registra:[...] o dualismo nas formas, que traduz posições de espírito também contrastantes, significa o mútuo enriquecimento das modalidades poéticas e a peculiaridade camoniana das conciliações que se rejeitam. Porque Camões é, ante de mais nada, o conflito, o dual, a antítese. E a sua poesia assim se expressa porque ali está o homem do Renascimento, colocando entre o misticismo de herança medieval e o racionalismo que se impunha às novas experiências, muito embora e por outro lado, ás ações predisse o desejo de harmonia, de feição também clássica (CASA DE PORTUGAL, 1964). Sobre estas afirmações Maria Helena Ribeiro da Cunha conta:Distinguir na sua poesia o conhecimento das doutrinas filosóficas, ou os trechos em que se evidencia a franca assimilação dessas doutrinas, [...] daqueles trechos aos quais acrescenta a contribuição pessoal, fruto de uma rica e verdadeira experiência. De um lado, portanto, uma poesia a indicar a cultura de um homem do seu tempo, carregado de informações doutrinais que foram colhidas pelo Poeta nas fontes mais em voga; de outro lado, a afirmar a elaboração de um temperamento propenso a conciliar as suas crenças religiosas com o elementos de uma formação acadêmica. (CUNHA, 1980)[v].


TítuloO texto se inicia por nota de compiladores, aqui adotamos a D\'Amor e seus danos (1595 - redondilha 105, como o caracteriza o IBL - Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, Portugal. Neste caso o título nada mais é do que a repetição do primeiro verso do poema, depois da glosa.GlosaAs redondilhas de Camões são iniciadas por um mote conciso, uma característica do estilo, onde a redondilha é antecedida por três versos (terceto) que contem a idéia principal do que será desenvolvido no poema. 01 a este moto:
02 Quem ora soubesse
03 onde o Amor nasce,
04 que o semeasse!
Este em questão, exprime um ar de decepção, num conselho pessimista que demonstrar a idéia da existência de pessoas infelizes ao amor, por não saber onde ele nasce, assinatura (moto) deste poema.Primeira estrofe05 D\'amor e seus danos
06 me fiz lavrador;
07 semeava amor
08 e colhia enganos;
09 não vi, em meus anos,
10 homem que apanhasse
11 o que semeasse.
Os traços das expressões comuns aos Evangelhos, se não se explica pela visão laica do mundo de Camões, se justificaria por sua vida, e seus estudos. Luís Vaz de Camões (1524(?) - 1580(?)), filho de Simão Vaz de Camões e Ana de Sá e Macedo, seu pai partiu só para as Índias em busca de riquezas, mas morre em Goa. Sua mãe se casaria novamente. Camões, um fidalgo pobre, é educado em Lisboa por jesuítas e dominicanos. Em Coimbra faz o curso de Artes no Convento de Santa Cruz. Isto explicaria em pare os traços comuns das expressões comumente usadas nos Evangelhos, o cristianismo é grande influencia nesta época na literatura e arte. O mundo é tem idéias laicas, e Camões se assemelha em linguagem a um renascentista. Veja a mesma linguagem figurada num trecho bíblico, aqui também referindo se ao amor. Camões usaria neste poema, as mesmas metáforas bíblicas tão comuns ao amor caridoso, para descrever, um amor magoado e desiludido comum do seu ser.Ele dizia (Jesus): “Eis que o semeador saiu para semear. E ao semear, uma parte da semente caiu à beira do caminho e as aves vieram e a comeram. Outra parte caiu em lugares pedregosos, onde não havia muita terra. Logo brotou, porque a terra era pouco profunda. Mas, ao surgir o sol, queimou-se e, por não ter raiz, secou. Outra ainda caiu entre os espinhos. Os espinhos cresceram e a abafaram. Outra parte, finalmente, caiu em terra boa e produziu fruto, uma cem, outra sessenta e outra trinta. Quem tem ouvidos, ouça! (Mt 13,3-9)Faz-se necessário ressaltar que tal evento pessimista, mesmo estando aqui tão intimamente ligado a metáforas bíblicas, não é correto relacioná-la, sabendo que por muitas vezes, o mesmo Camões, usou desta mesma linguagem pra proclamar o mais lindo amor, como fez no soneto “Sete anos de pastor Jacó servia”, apresentado abaixo:Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel serrana bela,
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prêmio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la:
Porém o pai usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida.
Tal evento se assemelharia a passagem do semeador, que enfrenta o desafio de encontrar terreno apropriado para plantar sua semente. Camões aqui parece estar se referindo a si mesmo, porém não é possível determinar que fato o levasse a escrever tal afirmação, pode-se ao menos citar que “freqüentasse o Paço por D. António de Noronha, cuja morte é citada num soneto. Ali conhece Dona Caterina de Ataíde, Dama da Rainha, por quem se apaixona perdidamente” (QUEIROS, 2006).Há quem diga que Camões teria se apaixonado pela própria Infanta D. Maria, irmã de D. João III, Rei de Portugal. Muito se diz sobre os sentimentos de Camões, porém são muitas as especulações, tantas e tamanhas a sua própria personalidade. De certo se pode afirmar que ele viveu solteiro, sozinho nunca! Durante bom tempo de sua vida foi um boêmio, com amigos vadios, e suas mulheres meretrizes. Assediador, usa de palavras jocosas, interpretadas como obscenas por seus contemporâneos.


Segunda estrofeA segunda estrofe é rica em metáforas líricas. Flores demonstram a beleza tão cobiçada, e tão “dura” ao coração.12 Vi terra florida
13 de lindos abrolhos,
14 lindos para os olhos,
15 duros para a vida;
16 mas a rês perdida
17 que tal erva pace
18 em forte hora nace.
O verso (13) usa a palavra “abrolhos”, que mesmo numa leitura externa, tem-se algumas definições, as quais duas se realçam, a primeira abaixo citada 1, o de espinhos em antítese ao próprio texto com flores vistas em “terras floridas”, e uma segunda, também citada pelo Larousse, a 3, que caracterizaria aqui o homem do mar.Os dicionários registram a palavra o verbete “abrolho” nos seguintes sentidos: ABROLHO (Ô) s.m. 1. Designação comum a diversas plantas rasteiras e espinhosas. 2. Qualquer espinho. 3. Forma do relevo submarino constituída por afloramento de rochas cobertos por menos de 20 cm de água, que por vezes emergem; escolho. (*) s.m. pl. Fig. Dificuldades, amarguras. (LAROUSSE, 2002)O verso (16) usa-se a palavra rês que no português atual tem como sentido qualquer quadrúpede usado para o abate, para uma definição foi usado um dicionário jurídico por sua abundância nos termos latinos.“RES”. Palavra latina, originada da raiz Ra, do sânscrito raz, é geralmente empregada na terminologia jurídica para exprimir tudo que é real ou se funda em coisa corpórea. Res, propriamente, significa coisa, ou todo objeto material, que não se refira ao homem. (DE PLÁCIDO E SILVA, 2001)Sobre esta definição, a coisa, é entendível que se perdeu algo, um amor, alguém, ou mais provavelmente o próprio tempo perdido na labuta pra conquistar alguém, cujo pessimismo ou sabedoria de Camões, parece afirmar ser inalcançável a si.Por outro lado é compreendido que o Animal perdido “que tal erva pace”, sendo mais compreendido, após esclarecer o verbete em negrito.O verso (17) usa termo Pace, que não é pertencente ao VOLP[vi] e que foi identificado como sendo do galego-português, cujo sentido esclarecer abaixo:Pacer v. i. Comer o gado a erva. v. tr. (1) Apacentar o gado. (2) Comer, roer, ou gastar. Pacer a outonia: (1) Fazer desaparecer a erva de um prado que nom se guarda bem. (2) Fig. Tirar a noiva a alguém. Sinóns. Pastar, pastejar [lat. pascere].
(E-ESTRAVIZ, 2007)
São ricos os significados dos três versos desta estrofe, o qual o verso (18), nace, definesse segundo ao dicionário Galego, Dicionário e-Estraviz, da segunte forma “Nacer v. i. Nascer [lat. nascere, por nasci]”, o que exibe neste trecho uma criatura, (coisa) que tem por natureza comer a erva (amor) assim que este nasce.Terceira estrofe19 Com quanto perdi,
20 trabalhava em vão;
21 se semeei grão,
22 grande dor colhi.
23 Amor nunca vi
24 que muito durasse,
25 que não magoasse.
A última estrofe fecha o contexto de decepção, quando o autor afirma categoricamente que de suas investidas ao amor, nunca teve sucesso, restando por experiência uma sabedoria de amarguras e desilusões. A lírica de amor camoniana tem sempre um desfeche doloroso, “porém a nota singularidade da lírica camoniana, sobrelevando-a de qualquer outra, é ter feito quase exclusivamente do Amor a dolorosa via crucis de acesso à tal “Beleza que não morre”, afirma Lênia Mongelli.Uma última consideraçãoCamões teria lido Platão, teria a influência italiana, laica? Especulações à parte, o Poeta viveu aventuras, e sua poesia autenticamente Classicista, demonstrou o misto de um nacionalismo uma religiosidade em conflito e a odisséia que de sua vida. Se pouco pode-se afirmar com absoluta certeza, não pode-se negar quão maravilhosa foi sua criação literária, frutos de um penar singular, e, que será eternamente atual....REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASFonte do poema D’amor e seus enganos foi o livro:CAMÕES, Luís Vaz. Rimas. ed. de 1595:CHISTE. Prefácio: Álvaro J. da Costa Pimpão. Coimbra: Almedina, 1994[vii].Demais referências:CATELAN, Álvaro. Literatura Luso-Brasileira. São Paulo: Editora do Brasil, 197?. 301 p.TUFANO, Douglas. Estudos de Literatura Brasileira. 4. ed. São Paulo: Moderna, 1988. 321 p.LES ÉDITIONS DU CERF. École biblique de Jérusalem. Tradução: Paulus. A Bíblia de Jerusalem. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2003. 2206 p.CUNHA, Maria Helena Ribeiro da. Lirismo e epopéia em Luis de Camões. São Paulo: Cultrix, 1980. 142 p.CAMÕES, Luís de. Para Tão Longo Amor Tão Curta A Vida - Sonetos e Outras Rimas. São Paulo: FTD, 1998.DicionáriosMERCURY JR, THE INTERNATIONAL ENCICLOPAEDIA. Mercury Jr da Língua Portuguêsa. Poliglota Ilustrado. 4. vl. São Paulo: Livro’mor, 19??.DE PLACIDO E SILVA. Vocabulário Jurídico. 18a. ed. Rio de Janeiro: Forense. 2001. 879 p.LAROUSSE CULTURAL. Pequeno Dicionário da Língua portuguesa. São Paulo: Nova Cultural/Moderna, 1992. 1047 p.Bases acessadas na InternetE-ESTRAVIZ. Dicionário da Língua Galego-Portuguesa, Disponível em:<< http://www.agal-gz.org/estraviz/>> Acessado em 16 de set 2007.QUEIROZ, Mirna. LUÍS VAZ DE CAMÕES. 2005. Disponível em: <<http://www.vidaslusofonas.pt/ luis_de_camoes.htm>> Acesso em: 15 set 2007. 

[i] O livreiro e l consta em capas de livros como, impresso do século XVI. Como pode ser visto na obra de FERREIRA, António, 1528-1569. Poemas lusitanos / do doutor Antonio Ferreira dedicado por seu filho Miguel Leite Ferreira ao Príncipe D. Phillippe, nosso senhor. - Em Lisboa: por Pedro Crasbeeck : a custa de Estevão Lopez, 1598. - [4], 240, [4] f. ; 4º (19 cm). - Assin: //A1//4,A-Z//8,a-g//8,h//4. - Anselmo 517. - D. Manuel 260[ii] Obra de Garcia de Resende;[iii] Garcia de Resende (Évora, 1470 - Évora, 1536) foi um poeta, cronista, músico e arquiteto português;[iv] Escalonamento feito pelo ensaísta[v] Publicado no Boletim Bibliográfico da Biblioteca Municipal Mário de Andrade, v. XXVII, jul.-ag.-set., 1970, São Paulo, com o título de As doutrinas filosóficas na lírica camoniana.[vi] Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, no Brasil mantido pela Academia Brasileira de Letras, e com força de Lei.[vii] Agradecimento a Marcella Moraes.