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   Não deixa de ser trágico, e também irônico, que a primeira condenação do caso Celso Daniel esteja ocorrendo nove anos após a sua morte e no apagar das luzes do governo
Lula. Com o ex-prefeito de Santo André, próspera cidade do cinturão industrial paulista, o PT deverá ter sempre uma dívida de gratidão. Sem Celso Daniel, o partido talvez não tivesse alcançado a Presidência da República, em 2002. Naquela disputa, Luiz Inácio Lula da Silva só aceitou concorrer pela quarta vez ao Palácio do Planalto depois de impor uma condição: a de entrar para ganhar, dispondo dos mesmos meios que seus adversários. E como o PT ainda não tinha acesso ao big business nacional, suas fontes de financiamento eram primitivas. Esquemas com empresas de ônibus, de lixo e do jogo nos governos municipais. De todos os prefeitos do PT, Celso Daniel talvez tenha sido o mais pragmático. Os fins justificam os meios.
   Em algum momento daquela disputa presidencial, Celso Daniel se viu no meio de duas quadrilhas: a “do bem”, formada por integrantes do seu partido dispostos apenas a chegar ao poder, e a “do mal”, liderada pelos empresários que se beneficiavam dos esquemas de Santo André. Na drenagem de recursos da prefeitura, uma parte era direcionada à campanha e outra aos agentes da corrupção. Consta que o ex-prefeito teria se revoltado com o exagero dos desvios para finalidades pessoais. E esse teria sido o motivo do fatídico jantar com seu ex-segurança, Sérgio Gomes, o “Sombra”, na noite do sequestro que culminou no seu assassinato. Um curioso crime em que os bandidos teriam rendido os dois na saída do restaurante, mas levado apenas Celso Daniel. Sombra hoje é suspeito de ser o mandante do crime, numa história sinistra que ainda envolve dois nomes fortes do governo Lula: Gilberto Carvalho e Miriam Belchior, cotados para o ministério de Dilma Rousseff.
   Celso Daniel se foi, mas o projeto político que venceu a disputa eleitoral de 2002 hoje está no poder. Não tivesse sido morto, quem seria hoje o ex-prefeito? Na campanha de Lula, ele era o homem forte, responsável pelo programa de governo. Culto, articulado e com experiência na gestão pública, ele provavelmente teria sido o coordenador do processo de transição e depois o ministro da Fazenda do primeiro mandato de Lula – um papel que, na sua ausência, foi exercido por Antônio Palocci, ex-prefeito de Ribeirão Preto, cidade paulista que também participou do esforço de arrecadação do PT em 2002. Palocci, como se sabe, era a primeira alternativa do partido para a sucessão de Lula, mas não pôde concorrer porque surgiu um Francenildo no seu caminho. Teria sido Celso Daniel o candidato natural à sucessão de Lula? Seria ele hoje o presidente eleito da República? Conjecturas possíveis, mas que jamais serão respondidas.

  Leonarto Attuch é jornalista (transcrito da revista IstoÉ)

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